Para os que já congelaram seu próprio coração, colocar o corpo ao vento gélido e cortante, não é prova de coragem. Para mim também não era, e lá estava eu descendo um monte, destino ao campo onde veria o fim da tarde. Tons de azul, rosa e vermelho se misturavam no céu do gelado outono, e no campo, nada de verde. O pouco que havia, era tom pastel, beje, cor de pele. Cor de pele sem brilho.
Era a mesma cor da pele do menino que estava sentado sobre o topo dos tocos de madeira. Eram sete tocos dispostos horizontalmente, dois no chão de areia, dois acima destes, mais dois acima destes últimos, e um, no centro, acima de todos, formando uma pirâmide semelhante as que formamos com cartas de baralho. E no topo. Havia um menino sentado. De lá me aproximei, e ele me fitou, sem me dizer nada, pois de sua boca apenas saíam vapores que saem de nossas bocas quando respiramos em dias de frio. Nem palavras, nem vapores, nada respondi a ele. Apenas o rodeei, e me pus a fingir estar fazendo algo. Para que não houvesse constrangimento, ele passou a fingir não me ver mais.
Lá estávamos nós. Eu e uma criança sentada no topo de um toco de madeira. No mesmo lugar, na mesma hora, porém, decidimos que seríamos invisíveis um ao outro. Este foi o acordo que selamos com vapores do frio e olhares desconfiados.
Sua pele em tom de grama sem brilho em fins de tarde de outono, estava coberto por um moletom avermelhado de manequim bem maior que o dele, provavelmente herdado do irmão mais velho. Uma calça tom de argila e um boné cor de velho completavam todo o vestuário de proteção aos ventos gelados. Sentado de forma em que todo o seu corpo se tocasse o máximo possível, ele esperava por algo, abraçado a uma bola de capotão. Era como se abraçá-la fizesse com que o frio diminuísse, mas logo notei que não era com o frio que ele queria acabar. Uma delas, em frente a ele.
E lá estávamos nós. Eu, uma criança sentada no topo de um toco de madeira, e uma árvore seca em nossa frente. Não pude perguntar a ela se ela podia me ver, mas como eu a podia ver, tenho a impressão de que ela não entrou no acordo de não-visibilidade. Com a falta de folhas para se agitarem com o vento, parecia que para aquela árvore seca, não existia o vento, pois os galhos permaneciam inertes. Ao olhar mais fixamente, percebi que a árvore nada mais era do que o nosso coração congelado de tristeza, solidão e falta de respostas para nossa própria existência.
Para os que já secaram, nada mais os enfraquece, pois chegaram no limite... era o destino daquela árvore. Para ela, nem o sol e a chuva de verão seriam capazes de reviver as folhas que outrora chacolhavam de alegria ao ver o mundo.
O mundo agora éramos eu, e aquele menino.
O menino remexia as pernas para avisar ao frio, de que só iria esperar mais um pouco. O frio não entendeu a mensagem, e se intensificou. Como forma de aliviar a angustia, ao menino restava apenas olhar no relógio as horas, para poder medir em algarismos a intensidade de sua solidão... Sem entender o porquê, eu também me atentei ao relógio, não ao dele, e sim ao meu. Não eram nem minutos, nem horas. Eram anos e anos de solidão cercada dos mais variados tipos de pessoas. Inclusive um menino sentado no frio.
O acordo cessou e ele me olhou de canto. Senti que estava me expulsando, pois era um atentado observar a vergonha de quem espera o que não virá. Não pude reagir a ele, então me retirei de lá sem olhar para trás... Ele não poderia fazer nada... estava apenas esperando. Mas não me contive, e ao olhar para onde vim, o vi cabisbaixo, abraçado mais intensamente ainda a sua bola, como quem parecia querer enfiá-la dentro de si, para preencher o que ali não havia. Talvez não tivesse motivos... mas mesmo que quisesse, me recusei a derrubar lágrimas, pois inventei a desculpa de que elas poderiam congelar meus olhos.
Em uma volta pelo lago do campo, fitei a lua mais amarela do que de costume, e a água com uma camada de neblina por cima. Haviam outras árvores, mas nenhuma tão seca quanto aquela. Para essas, era apenas uma má fase, de pouco verde, mas que cessaria no fim do inverno. Pessoas, não havia nenhuma. Eu estava sozinho... mas estava chegando a hora de que minha volta se completaria e enfim voltasse ao local dos tocos de madeira, aonde reencontraria minha silenciosa companhia. Então notei que o vento se acalmou. Restou apenas o ar frio em minha volta. E não muito longe, pude ver a silhueta do menino se distanciando, em passos curtos, tristes e frustrados.
A ironia me fez voltar a sorrir, para que pudesse elogiar o frio pela vitória sobre o menino, cansado de esperar pelo que não viria. Mas, a vitória de fato não existia. Uma última visão, botou em questão todo o meu conhecimento sobre a solidão... e eu botei em questão o ato daquele menino, e o que ele significaria para mim. Ao ver o menino ir embora, não havia notado, mas... parte dele ficou ali.
A bola. Ou talvez mais do que isso. Parte da essência daquele menino permaneceu, encostado nos tocos de madeira, parte da sua solidão foi deixada por ele, sozinha no relento do anoitecer. E após minutos de contemplação constante ao objeto deixado, senti de volta aquela dor que, anos antes, me dilacerou por tantas vezes. A dor daqueles que esperam algo que jamais virá. Talvez fora isso que o menino deixou naquela tarde, em formato de bola de capotão.
Voltei de onde vim. E lá ficaram... os tocos de madeira, a bola, e a árvore seca... seres brutos, aos quais classificamos como seres inanimados. Nem sempre tão diferentes de nós.
9 de junho de 2007
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5 comentários:
tu escreve muuito bem ;~~ percebo traços naturalistas, e realistas XD e um lado um pouco emo, tristonho ;~ li ambos esse /\ e akele \/ akele de baixo eram mtas frases com mtas idéias, não me ative à elas =| a do menino eu gostei... só queria um final mais feliz, ou uma lição menos triste ;~ =*
Dutra /\\/ sei la por q ta o treco do meu pai ake ¬¬'
Só tenho uma coisa a dizer neste exato momento em que acabo de ler seus textos: Cada vez mais me orgulho de vc e mais o admiro por ser um "ser humano" maravilhoso!
Amo muito vc!!!
Silvinha
Lindooooooooo!!!!!!!!!!! Pode até ser triste, mas quem já não passou por isso?! Amei!!!! :(
Cao, sem palavras!!! voce tem talento, muito talento! e dexaria muito escritor a desejar, viu?
Parabens
Ly
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