15 de dezembro de 2009

Lembrete: não se esquecer do que é ser humano. [1]

Essa vida sempre nos pregando peças. E que peças! No sossego de casa, me chega uma correspondência (não é email não!) me fazendo um convite extremamente inusitado. Mas tudo bem... quando o jogo tá zero a zero, a gente aceita qualquer truco.

E lá fui eu! Começando mais uma estranha jornada, que adentrariam 2 meses.

Bom... segui todos os caminhos do mapa que chegou em casa e fui parar em um lugar pelo qual já passava diversas vezes, mas que nunca precisei entrar. Muitas pessoas que conheço passam horas diariamente dentro deste lugar, mas não fui lá para ver nenhuma delas... muito pelo contrário: era quando elas saíam que tudo começava.

O primeiro impacto foi instantâneo ao entrar: quase 30 mulheres... e 1 homem. Não era um harém não... muito longe disso, pois no segundo impacto: lá estava eu - o mais novo (de loooonge) dos aventureiros.

Pobreza... dificuldades... dilemas de família... dilemas da terceira idade... dilemas femininos... deficiência física... doenças. Foi isso que encontrei nos primeiros dias de jornada, entretanto o que mais me impressionou foi a baixa auto-estima. Multiplicada por 30 é um clima tão pesado que seus músculos entram em uma constante tensão! Não há vacina, nem sistema imunológico que possa resistir a isso nos primeiros dias... confesso: foi o ar mais pesado que eu já respirei. E deixo aqui uma dica... eu não estava em um hospital, nem em um velório, nem em um asilo, nem em um campo de refugiados ou presídio.

Andamos com pessoas que gostamos, conversamos com amigos que nos fazem bem, convivemos em casa com familiares que conhecemos há muitos anos... as pessoas de quem não gostamos estão ali... as vezes até falamos com elas, mas não pretendemos estreitar os laços. Ou então, aquelas pessoas que até parecem boas pessoas, mas que ao falarem, ao agirem, ao pensarem, nada combinam com você. Parece que o problema está aí.

Era um lugar estranho, repleta de pessoas estranhas de uma bolha completamente diferente da minha. Sobre o que afinal eu poderia conversar com estas pessoas, se logo de cara, elas me olhavam, e me viam como um ícone da imbecilidade e da inutilidade da juventude. Se a juventude é isso ou não... deixo com vocês, mas eu não podia aceitar aquilo, era obrigação e questão de honra provar que eu não era aquilo tudo!

Duas semanas silenciosas... eu entrava... eu saía... falava menos que o necessário. Era essa a rotina. Não tinha outra saída a não ser mapear tudo aquilo, todo aquele território e todos aqueles seres desconfiados. São desconfiados e muito! Dá medo de qualquer coisa...

Bom.. aos poucos então pude me mostrar um pouquinho e os olhares começavam a mudar, rumaram do desprezo para a desconfiança. Sim, agora eles já não pensavam mais que eu era o ser jovem iconográfico e sim "e se ele não for...". Há! Era a chance! A porta se abriu, e eu entrei e escancarei tudo, como todo jovem imbecil faria! Foi certeiro, e os imbecis acertam! A primeira barreira foi transposta... agora eu já era aceito como um membro da sociedade ali existente! A jornada, já no mês de novembro, passaria para a segunda etapa...

(continua...)