
Imagine um cenário: uma sala de aula de paredes novas, porta nova, armários novos, lousa impecável, carteiras arrumadas, giz colorido, projetor, belos livros novos e apostilas cheias de conteúdo e uma linda cortina na janela com vista para o pátio. Dentro dela, apenas estas coisas. Não há ninguém. E assim passou um ano sem que nada acontecesse.
Imagine agora este: uma árvore de copa larga em um campo de terra batida ao lado de um gramado. Um local bem pobre, lá longe há uns casebres velhos e feios. Sob a árvore cerca de 30 pessoas, de diferentes idades mas maioria crianças, reunidas debaixo de sombra para resolverem um grande problema: todo dia de manhã se nota uma ovelha a menos. Uma criança viu as pegadas, outra disse que vira e mexe escuta uivados a noite e um adulto notou alguns pingos de sangue. Eles estão reunidos para resolver este problema. Colocar cerca? Caçar o lobo? Fazer uma emboscada? Alguns dizem que preferem a cerca pois não querem matar o lobo, outros não querem cerca para não perderem a liberdade e terceiros querem uma aventura atrás do predador. O mais velho da roda disse que só decidirão quando houver consenso entre 100% dos que ali estão. E após a decisão, passou-se um ano sem que galinhas desaparecessem.
Qual dos dois casos te parece a escola de hoje? É possível educar sem giz, lousa e apostila? É possível educar sem pessoas?
Nossa realidade assiste globalmente a vertiginosa crescente da violência. Não são a maioria, mas são os que falam mais alto, os que impõem, os que ameaçam e vociferam. A democracia dos países está ruindo pois não se reinventou. A da Grécia antiga demorou séculos para se tornar a de Roma e outros séculos para se tornar a da França que duzentos anos depois se torna a democracia ocidental. Essa democracia ruiu aqui e lá. Não representa mais nada e não é capaz de traduzir a versatilidade do mundo em que estamos, tornando-se puramente a legitimação da maioria que não sabe o que fazer. Uma maioria que raramente é abastecida de educação, cultura, qualidade de vida e humanização.
Falemos de Brasil: a maioria escolheu Collor, deu errado. A maioria escolheu FHC e hoje pensam que fizeram errado. O mesmo com Lula e Dilma após os escândalos. A maioria tirou Dilma e escolheu pela continuidade de Temer através de Jair. Em um país onde a educação ainda é privilégio e o tempo é usado para sobrevivência ou consumo a escolha da maioria sempre será comprometida, mas isso é aqui e fora. Globalizamos problemas.
Se dos 518 anos, menos de 50 são democracia participativa, convenhamos que não há cultura democrática no país. Cultura se cria através de repetições de gerações em gerações, é algo enraizado e orgânico, ou seja, não se pensa em ser democrático, SOMOS democrático como somos GENTE. Ninguém pensa em ser negro, se é e pronto. Ao menos deveria ser assim. Mas não é.
Nossos empregos não são democráticos, a religião não é democrática, nossa família não é democrática (e talvez seja o único dos casos em que realmente não deva ser), mas principalmente: nossas escolas não são democráticas. E quando não se tem democracia, se tem uma hierarquia voltada para a autoridade e não para o respeito, criando assim um organograma sempre de cima para baixo. Quem pode manda, quem não pode obedece.
Assim como a matemática pela matemática não serve de muito, e a gramática pela gramática não serve também, vejo que a democracia pela democracia também não serve. Ela ainda não nos é natural. Não temos a cultura da escuta, de assembleia, do círculo, nem do consenso sociocrático, nem de representantes e muito menos de participação ativa. O único poder conquistado foi um voto a cada quatro anos, que convenhamos, já se comprovou como insuficiente em todo o mundo.
Não vejo outra forma de luta a não ser a das comunidades que aprendem juntas. Escolas que em nada se pareçam com o que conhecemos hoje (em 99% dos casos), pois grande parte dos casos são escolas pensadas ao redor da estrutura e não do ser humano. A criança vem por último, depois dos sistemas, dos papéis, dos materiais, das provas, dos pais, da mensalidade, do evento, da secretaria, do professor... Como já disse, ainda não vi em termos grandes, greve de professores lutando pelo desenvolvimento integral. Já vi por salários, por prédios, por merenda... mas por educação integral ainda não. Por que?
A grande maioria dos professores, eu incluso, não teve educação integral. Jamais vivenciaram democracia de verdade (fora urna, eleição e horário político). Não fazem ideia das questões neurológicas de aprendizagem. Nunca viram uma escola totalmente diferente das que estiveram na infância. Não sabem absolutamente nada sobre meditação, sobre consciência corporal, sobre a importância do brincar, sobre temperamentos... isso falando de crianças. Falando de escolas, não sabem de onde vem seus salários, de onde surgem as verbas, como se formam os conselhos e a força destes, muitas vezes propositalmente tirados de cena por administrações centralizadoras e donas da razão. Quantos vivenciaram e entenderam realmente as pedagogias que acham que aplicam?
Agora que a maioria legitimou (fora da lei) a violência, o estupro, a ignorância, o preconceito, o desmatamento, o lesa-pátria e a vociferação, estamos em uma situação bem complicada. O sistema permite que isso tudo ocorra sem problemas, afinal a maioria escolheu. Se isso não ocorrer, a maioria irá reclamar; se isso ocorrer estamos todos perdidos e instaura-se a barbárie.
Não tenho solução pensada. Sim, continuar nossa pequena luta do dia-a-dia é preciso, mas não é mais o bastante... Mas tudo bem, o dia vai raiar pra gente se inventar de novo. Chegou a hora de repensarmos muita coisa e a primeira dela será a cultura democrática. Não teremos séculos para aprender, pois a velocidade do mundo é maior e nosso tempo possível bem menor. Viver a democracia de forma participativa já é passado, se não o fez até agora, não tem problema, você agora está convidado a conhecer novas culturas políticas: a sociocracia-próxima como parte da democracia real e a economia de dádivas, que iniciarão a terceira década como formas de superar antigas dualidades falidas do século passado.
O que você está fazendo hoje diferente do que fez ontem? A chave para a primeira porta está aí, e digo tranquilo que observei, compreendi e fui atrás de muitos que por ela já passaram... Hoje vejo que quem passou por ela precisa voltar pra chamar mais gente. Nas próximas não há exclusivismo, o ego pouco importa, assim como as abstrações pelas quais brigamos, e o melhor: não há nada acima de todos.

