24 de novembro de 2018

A incrível história dos que demoram anos pra nascer

Lá no meio do gramado
todo verde, vivo e molhado
caíram sementes de algum descuidado. 


Oito foram tragadas
pela terra abraçadas
germinadas e agora iluminadas. 


Uma não. 
Caiu no chão,
local seco, duro, sem emoção. 

Concreto cinza 
ninguém passa, nada passa
Triste fim, uma desgraça.



A primeira macieira virou,
a terceira um pinheiro que durou,
a oitava tinha copa larga que abrigou...



E algo passou.
O tempo passou.
O vento passou.

A nona semente
soprada de repente
anos depois encontrou finalmente. 

Todas olharam
Por anos esperaram
Nada ocorreu até que se cansaram. 

Não adiantava.
Era só sombra, nada iluminava. 
A terra não tinha nada que alimentava. 


A primeira apodreceu e caiu.
A segunda entortou com o vento e caiu.
A terceira? Madeira! cortaram e caiu.
A quarta secou e caiu.
A quinta era pequena, foi esmagada e caiu.
A sexta queimou e caiu.
A sétima era fraca, se entristeceu e caiu.

Folhas, flores, frutas e galho
Fortes troncos agora em frangalho
Todas mortas aos pés do decrépito oitavo carvalho

E algo passou.
O tempo passou.
O calor do sol passou.

Explosão de vida após a morte
Átomos se recombinando no chão a própria sorte
E a nona semente, perseverante, forte, enfim achou seu norte


Encontrou água e alimento,
a luz do Sol a sua esquerda e o fim do esquecimento
distanciando-se pouco a pouco do infértil cimento.

Rachou, partiu, quebrou
Cresceu, dobrou, espalhou
E tipo Pirangi, o polvo de Luís Inácio, se tornou.

Até hoje se faz rima
Sem saber qual é a parte de cima
Do caju do cajueiro que avisa a todo instante que, de novo, o novo se aproxima.



Que há quem nasça,
quem só aparece depois que tudo passa
E quem só passou a existir depois, que um dia se encantou, e passou a achar graça.

30 de outubro de 2018

A PRIMEIRA PORTA DO LABIRINTO

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Imagine um cenário: uma sala de aula de paredes novas, porta nova, armários novos, lousa impecável, carteiras arrumadas, giz colorido, projetor, belos livros novos e apostilas cheias de conteúdo e uma linda cortina na janela com vista para o pátio. Dentro dela, apenas estas coisas. Não há ninguém. E assim passou um ano sem que nada acontecesse. 


Imagine agora este: uma árvore de copa larga em um campo de terra batida ao lado de um gramado. Um local bem pobre, lá longe há uns casebres velhos e feios. Sob a árvore cerca de 30 pessoas, de diferentes idades mas maioria crianças, reunidas debaixo de sombra para resolverem um grande problema: todo dia de manhã se nota uma ovelha a menos. Uma criança viu as pegadas, outra disse que vira e mexe escuta uivados a noite e um adulto notou alguns pingos de sangue. Eles estão reunidos para resolver este problema. Colocar cerca? Caçar o lobo? Fazer uma emboscada? Alguns dizem que preferem a cerca pois não querem matar o lobo, outros não querem cerca para não perderem a liberdade e terceiros querem uma aventura atrás do predador. O mais velho da roda disse que só decidirão quando houver consenso entre 100% dos que ali estão. E após a decisão, passou-se um ano sem que galinhas desaparecessem. 

Qual dos dois casos te parece a escola de hoje? É possível educar sem giz, lousa e apostila? É possível educar sem pessoas? 



Nossa realidade assiste globalmente a vertiginosa crescente da violência. Não são a maioria, mas são os que falam mais alto, os que impõem, os que ameaçam e vociferam. A democracia dos países está ruindo pois não se reinventou. A da Grécia antiga demorou séculos para se tornar a de Roma e outros séculos para se tornar a da França que duzentos anos depois se torna a democracia ocidental. Essa democracia ruiu aqui e lá. Não representa mais nada e não é capaz de traduzir a versatilidade do mundo em que estamos, tornando-se puramente a legitimação da maioria que não sabe o que fazer. Uma maioria que raramente é abastecida de educação, cultura, qualidade de vida e humanização. 

Falemos de Brasil: a maioria escolheu Collor, deu errado. A maioria escolheu FHC e hoje pensam que fizeram errado. O mesmo com Lula e Dilma após os escândalos. A maioria tirou Dilma e escolheu pela continuidade de Temer através de Jair. Em um país onde a educação ainda é privilégio e o tempo é usado para sobrevivência ou consumo a escolha da maioria sempre será comprometida, mas isso é aqui e fora. Globalizamos problemas.


Se dos 518 anos, menos de 50 são democracia participativa, convenhamos que não há cultura democrática no país. Cultura se cria através de repetições de gerações em gerações, é algo enraizado e orgânico, ou seja, não se pensa em ser democrático, SOMOS democrático como somos GENTE. Ninguém pensa em ser negro, se é e pronto. Ao menos deveria ser assim. Mas não é. 

Nossos empregos não são democráticos, a religião não é democrática, nossa família não é democrática (e talvez seja o único dos casos em que realmente não deva ser), mas principalmente: nossas escolas não são democráticas. E quando não se tem democracia, se tem uma hierarquia voltada para a autoridade e não para o respeito, criando assim um organograma sempre de cima para baixo. Quem pode manda, quem não pode obedece. 

Assim como a matemática pela matemática não serve de muito, e a gramática pela gramática não serve também, vejo que a democracia pela democracia também não serve. Ela ainda não nos é natural. Não temos a cultura da escuta, de assembleia, do círculo, nem do consenso sociocrático, nem de representantes e muito menos de participação ativa. O único poder conquistado foi um voto a cada quatro anos, que convenhamos, já se comprovou como insuficiente em todo o mundo.

Não vejo outra forma de luta a não ser a das comunidades que aprendem juntas. Escolas que em nada se pareçam com o que conhecemos hoje (em 99% dos casos), pois grande parte dos casos são escolas pensadas ao redor da estrutura e não do ser humano. A criança vem por último, depois dos sistemas, dos papéis, dos materiais, das provas, dos pais, da mensalidade, do evento, da secretaria, do professor... Como já disse, ainda não vi em termos grandes, greve de professores lutando pelo desenvolvimento integral. Já vi por salários, por prédios, por merenda... mas por educação integral ainda não. Por que? 

A grande maioria dos professores, eu incluso, não teve educação integral. Jamais vivenciaram democracia de verdade (fora urna, eleição e horário político). Não fazem ideia das questões neurológicas de aprendizagem. Nunca viram uma escola totalmente diferente das que estiveram na infância. Não sabem absolutamente nada sobre meditação, sobre consciência corporal, sobre a importância do brincar, sobre temperamentos... isso falando de crianças. Falando de escolas, não sabem de onde vem seus salários, de onde surgem as verbas, como se formam os conselhos e a força destes, muitas vezes propositalmente tirados de cena por administrações centralizadoras e donas da razão. Quantos vivenciaram e entenderam realmente as pedagogias que acham que aplicam? 

Agora que a maioria legitimou (fora da lei) a violência, o estupro, a ignorância, o preconceito, o desmatamento, o lesa-pátria e a vociferação, estamos em uma situação bem complicada. O sistema permite que isso tudo ocorra sem problemas, afinal a maioria escolheu. Se isso não ocorrer, a maioria irá reclamar; se isso ocorrer estamos todos perdidos e instaura-se a barbárie. 

Não tenho solução pensada. Sim, continuar nossa pequena luta do dia-a-dia é preciso, mas não é mais o bastante... Mas tudo bem, o dia vai raiar pra gente se inventar de novo. Chegou a hora de repensarmos muita coisa e a primeira dela será a cultura democrática. Não teremos séculos para aprender, pois a velocidade do mundo é maior e nosso tempo possível bem menor. Viver a democracia de forma participativa já é passado, se não o fez até agora, não tem problema, você agora está convidado a conhecer novas culturas políticas: a sociocracia-próxima como parte da democracia real e a economia de dádivas, que iniciarão a terceira década como formas de superar antigas dualidades falidas do século passado. 

O que você está fazendo hoje diferente do que fez ontem? A chave para a primeira porta está aí, e digo tranquilo que observei, compreendi e fui atrás de muitos que por ela já passaram... Hoje vejo que quem passou por ela precisa voltar pra chamar mais gente. Nas próximas não há exclusivismo, o ego pouco importa, assim como as abstrações pelas quais brigamos, e o melhor: não há nada acima de todos. 

8 de abril de 2018

Japonês Caipira

Assistindo a uma palestra do grande Ivan Vilela no FLADEM (Fórum Latino Americano de Educação Musical) na USP, sobre a Música Caipira, me vieram diversos insights e reflexões interessantes. Quando ele tocou a música "Saudades do Japão" dos Irmãos Kurimori (dupla descoberta em 1858) me vieram constatações reais do quanto realmente a cultura caipira dobrou culturas estrangeiras e fez com que até italianos e japoneses recém chegados se tornassem caipiras em vários cantos do país.

TALVEZ NEM TODO MUNDO SAIBA...:
- Caipira tem origem das línguas tupi e tem relação com "cortador de mato";
- O 'jeito' caipira de falar, é considerado um dialeto e ele preserva coisas muito interessantes do português arcaico e ainda mais sobre o Nheengatu;
- NHEENGATU foi um dialeto de origem Tupi que surgiu da Língua Geral Setentrional, ou amazônica em paralelo com a língua geral meridional. Essa língua foi a mais falada no Brasil até 1758 quando sofreu com a proibição por parte do Marques de Pombal, além de ter sofrido com a forte migração portuguesa.
- Nesse dialeto originalmente haviam características em relação a sempre haver vogal depois de consoante e do som do R. Por isso o tal sotaque caipira com PORTA, MUIÉ, OREIA... O sotaque caipira não é errado, é um dialeto e o Nheengatu foi até o século 18 a genuína Língua Brasileira criada por linguistas como Padre Anchieta.

Mas aqui no caso queria chamá-los para entender a questão do que falo no início. Escutem esta música no youtube dos Irmãos Kurimori. Eles não só se utilizam de toda a linguagem musical caipira como criam uma intertextualidade belíssima com canções, uma folclória japonesa, uma brasileira ao final e outra internacional (de origem escocesa), conhecida no Japão como "Hotaru no Hikari" ou "Valsa da Despedida". 

Além da boniteza da letra, da melodia e da simplicidade na forma da música, as alterações tonais entres as partes da música são muito interessante sempre que alternam entre a moda de viola que conta as saudades do japão e as intertextualidades musicais das quais falei.

Vejo hoje em dia como é difícil se encontrar casos de intertextualidade nas composições, principalmente no Pop, que joga tudo quanto é referência em um caldeirão e produz uma música destinada a um público pasteurizado.

Uma das coisas que Ivan deixou claro em sua palestra foi justamente a questão de como costumamos chamar certos tipos de música como "música regional". Ou seja, se não está no eixo SP-RJ-SALVADOR é música regional. Se é música regional ou caipira, não se caracteriza como MPB... mas porque? Ele ainda complementa se o jeito carioca de se falar, por exemplo, não seria um verdadeiro regionalismo?

É engraçado reparar em antigas colônias de imigrantes e notar que primeiro passam por um processo de perda de suas raízes (principalmente em grandes centros urbanos), vão se desligando do idioma, de costumes e culturas, e hoje se afastam também da cultura caipira que seus avós e batchans tanto trouxeram para o dia a dia e aos poucos vão falando o 'português standard', ouvem música 'standard' e tornam-se não regionais. Conhecidos também como pessoas de "lugar algum" com uma terrível sensação tardia de perda de identidades, crescendo achando normal comemorar Halloween e crendo que o Natal só existe como conhecemos depois do Pop Noel. Você já se perguntou como eram as principais festividades no Brasil antes dos 1900?

Ouvindo a música dos Irmãos Kurimori, muitas coisas passaram pela cabeça, e uma delas foi, mesmo com todo o turbilhão de informações e coisas passando por aí, poucas vezes vi um verdadeiro e genuíno caso de casamento entre culturas, que não seja forjado ou pra inglês ver e que realmente revele a dualidade de culturas do mundo se entrelaçando. Eram japoneses, eram brasileiros, eram caipiras e tudo isso vem a tona em uma composição feita a partir de uma vivência e não como se faz muito em tempos recentes: "Vou criar algo sobre uma coisa legal que eu nunca vi, nunca vivi nem estudei, mas que imagino ser interessante". Assim nascem muitas novelas da globo e muito produto de entretenimento americano repletos de preconceitos incontáveis...

23 de março de 2018

O que Darcy Ribeiro não falou...



"A crise na educação não é uma crise; é projeto" - Esta frase famosa tornou Darcy Ribeiro um dos caras mais citados em memes de facebook no âmbito da educação, ficando pau a pau com Paulo Freire por exemplo.

Darcy Ribeiro não quis desenhar seu significado quando afirmou esta frase que atinge a educação de forma mais ampla. Ou se esqueceu, ou não notou, ou achou desnecessário.

Aos que não conhecem, podemos colocar Darcy Ribeiro dentro de um quarteto de pessoas que nos ajudam a comprovar que políticos não são uma classe maldita. Maldito é o político de carreira, que nasce político porque o pai era político, que descende do avô político e assim por diante. Ou aquele que nada, absolutamente NADA tem a acrescentar a não ser um incrível poder de negociação com todo tipo de gente visando seus próprios interesses. O nome disso no entanto não é político, é sem vergonha mesmo.

Esse quarteto imaginário (não existiu como uma Liga da Justiça ou um X-Men) trazia Darcy, Paulo Freire, Anísio Teixeira e Lauro de Oliveira Lima. E dentre os legados deixados estão uma visão muito mais humana da educação, a LDB que ainda que seja letra morta nos dias de hoje, dá respaldo para que se pense de verdade em prol da educação, a escola pública, livre e que garante direitos a todos e libertária. Foram alguns que comprovaram que ser político não é ser santo, nem bandido, e só faz sentido se for por uma causa pelas quais estudaram e se aprofundaram.

Mas o que Darcy não escreveu em sua frase? Faltou a ele explicar ou desenhar para os que entendem apenas metade do que está subentendido. Repare, ele não colocou a palavra "governo", o que não confere responsabilidade ao tal projeto e para muitos, o projeto em voga é tocado por agendas neo-liberais dos últimos 24 anos de governo pós reabertura democrática. Mas e antes? Antes não havia governo, apenas imposição por parte de uma classe armada, nem consideremos.

Quer dizer que a responsabilidade dessa projeto é dos governos? Não. É aí que mora o engano. O projeto de crise da educação é de responsabilidade de cada comunidade onde ela aperta. O projeto dos governos oligárquicos e autocratas é outro - desigualdade econômica com injustiça social. Eles só se incomodam com a educação quando algo muito grave está prenunciado. Seu projeto afeta questões salariais, de infra-estrutura, de saúde precária, baixo consumo e falta de aparelhos do Estado em todo país, mas esse projeto não afeta a inteligência, a mente e a vontade de quem sabe que a coisa toda tá errada e sabe como começar a mudar.

Como assim? Eles não precisam se preocupar em 'tornar a educação ruim'. Existem burocratas na sua escola? Existe um fiscal do MEC na sua escola? Existe um promotor de justiça pronto para pegar professor inovador? Guardas? Tribunal de exceção? Milícias? - Se bem que hoje em dia não seria difícil imaginar uma dessas coisas em uma escola, mas sabemos que na maioria não há. No máximo uma patrulha ideológica de um dos lados ou uma pegada religiosa fundamentalista por parte de alguns.

Onde quero chegar? Se não há coisas como essa na escola, quer dizer que o projeto de Crise Educacional nasce justamente onde ela mais afeta, é quase um auto-flagelo. A culpa então é dos professores, funcionários, secretários...? Não. Mas a solução parte destes.

Que pai será contra uma escola que ensina e aprenda a aprender? Que governo será contra um mundo de pais que são a favor de uma escola que ensina e aprenda a aprender? Que povo será contra um governo que seja a favor de uma escola que ensina e aprenda a aprender? - Por favor, se você der nome para algum boi destas perguntas então mantenha distância. Lauro de Oliveira Lima foi um dos caras que iniciou no Brasil a ideia na prática de que professor não ensina e sim, ajuda o aluno a aprender, repare na diferença crucial disso.

Para os que acharem utópico, me procurem para saber onde existem escolas (que não são prédios e sim um conglomerado de pessoas motivadas em razão da educação que até podem se reunir em um prédio) em que isso já acontece há décadas. Porque não se proliferam? Por que elas não podem fazer PELO outro o que o OUTRO não busca por si só.

A maioria das escolas públicas é tomada por um abandono de alma, nutrido diariamente por frases como "isso não tem jeito", "sempre foi assim", "a culpa é dos políticos ladrões", "os pais não se interessam", "funcionário público é tudo folgado". Experimente surgir sozinho numa escola dessas querendo fazer diferente e verá o martírio comer sua própria mente. Repare na palavra "sozinho", ela muda tudo.

Bom, para encerrar, gostaria de me ousar a complementar a frase de Darcy. "A Crise na Educação não é uma crise; é projeto " aceito por grande parte de uma comunidade educacional sem referências, inspirações e capacidade de aprendizado."

Aproveitemos enquanto ainda temos letras, que ainda que meio moribundas, no garantam tais transformações. Hoje, podemos dizer que grande parte das escolas estão fora da lei (segundo o que ilumina nossa constituição)... as escolas ruins. Se a gente demorar um pouquinho mais, o leite vai derramar e uma inversão de polos pode fazer com que as melhores iniciativas educacionais que temos hoje (ainda que raras ou não descobertas) tornem-se fora da lei. A BNCC, a má reforma do Ensino Médio, o Escola Sem Partido e o sucateamento da educação pública em prol de privatizações são os primeiros sinais que o leite tá na borda da panela.

Uma escola não é capaz de ensinar se não souber aprender; e a frase da imagem no começo do post é um lembrete.