9 de agosto de 2007
Eu, a doceira... e os sonhos.
Pouco espaço, muito serviço, fatos, fotos
Muitos lápis, poucas idéias, tintas, papéis
Pouco tempo, muita disposição, biscoito, leite
Muitos rascunhos, pouca limpeza, clareza, ordem
Dia de trabalho, noite de amor, cama, inspiração
Noite de trabalho, dia de passeio, família, cachorro
Dia de trabalho, sozinho, música, fast-food
Noite de trabalho, companhia, silenciosa, vital
Folga, corrida, tambor, violão
Labor, corrido, editor, sermão
Folga, suspiros, amor e tesão
Labor, suspiros, calor e serão
Torta, cruz, crus, croassaints
Mudo, mundo, criado, criado
Herói, chove, chuva, chorão
Músico, chama, chapado, chopin
Cruz torta, croassaints crus
Mundo criado, criado mudo
Chove chuva, Herói chorão
Músico chapado, chama chopin
Dinheiro, compro, compras, compromisso
Problemas, conto, contas, comigo
Mérito, contigo, consigo, continuo
Sobrevivo, comendo, com medo, consumo
Compras dinheiro, compro compromisso
Conto problemas, contas comigo
Mérito consigo, contigo continuo
Sobrevivo com medo, comendo consumo.
Sorrindo, cantando, feliz, agora
Trabalho, criando, cobrando por hora
Vou indo, voltando, te encontro, lá fora.
Te agarro, sonhando, vem comigo, vambora!
27 de julho de 2007
Trocado
...tudo o que havia era chão molhado e cheiro de semana chuvosa. No entanto, naquela noite nem chovia mais, mas o frio fazia sair uma leve fumaça dos bueiros. Havia iluminação e gente transitando o tempo todo... mas ali: o tempo havia parado. Cachorro fora de hora, fora de si, respirava por puro costume, pois, de verdade, nem estava ali.
O cachorro estático se perdia em meio a tantos movimentos do mundo. Seu olhar se perdia a tantas cores e tons, sombras e luzes... e o seu silêncio se sobrepunha a todo e qualquer barulho daquela noite como todas as outras. Agitada, iluminada pelas luzes que se refletiam no chão molhado, aquela noite hipócrita como qualquer outra.
As pessoas iam da esquerda para direita, de cima pra baixo, subiam e desciam calçadas, estacionavam olhares e manobravam conversas com conhecidos indesejáveis e desconhecidos impressionantes. As mãos ou se cumprimentavam ou cumpriam com pagamentos... compravam, vendiam... o que as luzes dos muros mostravam. Marcas nada marcantes, para que esqueçam das coisas que marcam suas vidas. Marca que marcapasso-a-passo da vida medíocre que passa pelos olhos daquele cachorro.
Pano cinza, cor de feupa com mofo, cheirando a fedido, todo encardido cobrindo cachorro na beira da vida, na beira de todos os que andam sem saberem onde ir. Cachorro não se move, se não sabe onde ir, sabe que nem ir deve, por isso roda roda, até sentar no mesmo lugar em que rodou. De forma diferente, aquelas pessoas perseguiam seu próprio rabo, achando ser objetivos outrora traçados. Sem traços, com panos, cem anos, com traças... humanos... muito provável que o pano dure mais que o cão. Muito provável que ainda faça feder muitos seres vivos, brutos, vivos ou mortos. Para o pano não interessa... assim como a coroa foi feita para enaltecer o rei que ja nasceu nobre, o pano foi feito para empobrecer o que já nasceu pobre.
Idas e vindas, passos e tropeços, calçadas e hidrantes... personagens e cenários compondo a visão perdida de um cão cego de alma, pobre de espírito e... o corpo é apenas uma embalagem vazia.
Seu estado agora, fora invadido, uma senhora de bom sorriso sem motivos pra sorrir também parou diante do movimento do mundo, e estacionou o tempo para atentar ao cão. O cão sorriu sem dentes, sem alegria, sem vida e estiou a mão para a senhora, empurrando um pedaço de chapéu. Mãos pequenas e velhas demais para apenas 11 anos empurraram o chapéu e a culpa para a senhora. Ela haveria de pagar pelo que alguém não fez. O único suspiro do cão, atendido pela senhora, clamava sem força nem vontade, soando: "Tia, me dê um trocado...".
Moedadas e o mundo voltou a girar. Tudo voltou ao seu lugar e para sua ação, inclusive o olhar perdido de um ser vivo sem vida. Que fará todos olharem, quando seus olhos pararem de olhar, para contemplar em fim, o fim da vida, e o começo de um conforto incerto.
O cachorro estático se perdia em meio a tantos movimentos do mundo. Seu olhar se perdia a tantas cores e tons, sombras e luzes... e o seu silêncio se sobrepunha a todo e qualquer barulho daquela noite como todas as outras. Agitada, iluminada pelas luzes que se refletiam no chão molhado, aquela noite hipócrita como qualquer outra.
As pessoas iam da esquerda para direita, de cima pra baixo, subiam e desciam calçadas, estacionavam olhares e manobravam conversas com conhecidos indesejáveis e desconhecidos impressionantes. As mãos ou se cumprimentavam ou cumpriam com pagamentos... compravam, vendiam... o que as luzes dos muros mostravam. Marcas nada marcantes, para que esqueçam das coisas que marcam suas vidas. Marca que marcapasso-a-passo da vida medíocre que passa pelos olhos daquele cachorro.
Pano cinza, cor de feupa com mofo, cheirando a fedido, todo encardido cobrindo cachorro na beira da vida, na beira de todos os que andam sem saberem onde ir. Cachorro não se move, se não sabe onde ir, sabe que nem ir deve, por isso roda roda, até sentar no mesmo lugar em que rodou. De forma diferente, aquelas pessoas perseguiam seu próprio rabo, achando ser objetivos outrora traçados. Sem traços, com panos, cem anos, com traças... humanos... muito provável que o pano dure mais que o cão. Muito provável que ainda faça feder muitos seres vivos, brutos, vivos ou mortos. Para o pano não interessa... assim como a coroa foi feita para enaltecer o rei que ja nasceu nobre, o pano foi feito para empobrecer o que já nasceu pobre.
Idas e vindas, passos e tropeços, calçadas e hidrantes... personagens e cenários compondo a visão perdida de um cão cego de alma, pobre de espírito e... o corpo é apenas uma embalagem vazia.
Seu estado agora, fora invadido, uma senhora de bom sorriso sem motivos pra sorrir também parou diante do movimento do mundo, e estacionou o tempo para atentar ao cão. O cão sorriu sem dentes, sem alegria, sem vida e estiou a mão para a senhora, empurrando um pedaço de chapéu. Mãos pequenas e velhas demais para apenas 11 anos empurraram o chapéu e a culpa para a senhora. Ela haveria de pagar pelo que alguém não fez. O único suspiro do cão, atendido pela senhora, clamava sem força nem vontade, soando: "Tia, me dê um trocado...".
Moedadas e o mundo voltou a girar. Tudo voltou ao seu lugar e para sua ação, inclusive o olhar perdido de um ser vivo sem vida. Que fará todos olharem, quando seus olhos pararem de olhar, para contemplar em fim, o fim da vida, e o começo de um conforto incerto.
26 de julho de 2007
As Profecias da Nomenclatura
São tempos estranhos... Se já passamos pela primeira guerra, é porque estava óbvio que haveria a segunda, e se ela foi chamada de segunda, é porque não é a última, o que indica que haverá a terceira um dia. Se será a última ou não... dependerá de como ela será chamada. Terceira ou última? Ou a mesma... a mesma perda de tempo, de potencial e de vidas... mudando os nomes, as nações, as táticas... no básico, no ninguém ganha e todos perdem, ela continuará sendo a mesma de sempre.
Quando existir a terceira guerra, haverá também um palhaço. Um homem em meio a guerra, vivendo para sobreviver; driblando todo e qualquer estilhaço de confronto para que haja algum sopro de vida. Quando houver palhaço, haverá também um diário, aonde se registrará toda a trajetória deste homem, todas as pessoas que o ajudaram e as que o fizeram ter medo. Também haverá uma esposa, uma filha e amigos... todos no meio da guerra, no meio das duas linhas cheias de letras que acabarão por ser o único refúgio de um refugiado de guerra.
Quando existir a terceira guerra, haverá também um palhaço. Um homem em meio a guerra, vivendo para sobreviver; driblando todo e qualquer estilhaço de confronto para que haja algum sopro de vida. Quando houver palhaço, haverá também um diário, aonde se registrará toda a trajetória deste homem, todas as pessoas que o ajudaram e as que o fizeram ter medo. Também haverá uma esposa, uma filha e amigos... todos no meio da guerra, no meio das duas linhas cheias de letras que acabarão por ser o único refúgio de um refugiado de guerra.
Haverá guerra... Haverá palhaço... Haverá diário...
E tudo então será como já fora um dia... e ainda não saberemos se será a terceira ou última vez que veremos isso diante de nossas limitadas existências, de nossa desumana desunidade.
29 de junho de 2007
Corruptossauro
-Morte aos corruptos! - Esta é uma frase da qual poderia sair da boca de qualquer pessoa no mundo que seja contra a corrupção, seja onde estiver. Mas, Rousseau estaria certo ao afirmar que o homem natural existe junto a natureza para superar as adversidades com a sua própria existência e tudo aquilo que lhe pertence? Creio que sim.
Mas, tanto os corruptos, como nós (também), não somos homens naturais. Nos tornamos o que chamam de "homem civil", dentro do antro de todos os equívocos: a sociedade.
Mesmo que bebês nascessem maus por natureza, a maioria deles, se tornaria bons nos primeiros anos de vida, a não ser que sofram maus tratos. Em que momento então, nasceria o homem corrupto?
Acredito que muitos dos corruptos de hoje, nem sempre estiveram naquela margem do rio, mas quando penso no que os fizera atravessá-lo, me deprimo com a falta de complexidade do homem. Os previsíveis atravessam o rio e prosperam, os imprevisíveis recusam, e sabe-se lá para onde vão. A maioria desaparece - sai de cena - e do sistema.
Agora me diga: em casa, na escola, no seu emprego... você já foi corrupto? Fez algo para se eleger representante de classe, ou subornou sua mãe para lhe comprar algo, ou sua filha para que parasse de chorar, subornou aluno pra ficar quieto... Quantas vezes você já foi corrupto? Que atire a primeira pedra... espere um pouco! Vocês não me farão concluir esse jargão né? Não é preciso.
Então podemos concluir que o homem nasce corrupto, ou pelo menos cresce corrupto. Mas, concordamos no fato de que existem corrupções que não fazem mal... é tudo uma questão de bom senso, não? Dizer que subornar os pais para lhe comprar um brinquedo é o primeiro passo para se tornar aquele político crápula de conduta irreversível seria no mínimo exagero. Sim?
Imagine-se no poder. Sua popularidade como uma pessoa idealista e capaz de lutar pelos direitos da maioria desfavorecida o leva a um cargo alto no governo. O que você faria? Por mais forte que seja sua personalidade e ideal, sendo apenas um, você não é capaz de fazer as alterações que deseja. E é aí que você se corrompe. Precisa de aliados, de intermediadores... e quando se vê cercado deles, vê que abandonou mais da metade dos ideais antes de conquistá-los. A velha história da maçã podre. Mas, sabemos... você foi corrompido por si mesmo, ao cair na convenção, entrar para o sistema - quis jogar o jogo.
Será mesmo impossível realizar bem feitorias sozinho? Claro. Seguir suas idéias para um bom objetivo, o fará enxergar aonde estão os verdadeiros aliados... e provavelmente não estão na política como conhecemos. O lugar dos que querem um mundo bom, infelizmente, não tem sido na política. Vamos... acorde! Antes de matar os corruptos ou a si mesmo, viva pelos que ainda não se corromperam, por aqueles que ainda querem igualdade sem hipocrisia, reúna-se nos pequenos cantos, revolucione tua escola, teu bairro, tua loja. Quando tomarmos conta disso, os políticos autoritários tremerão e assim como nós respeitamos e tememos a figura de Deus (exista ou não), eles respeitarão a massa e nova democracia e economia nascem.
Bom, uma hora dessas podemos todos pegar nossos paninhos de limpeza e por fim limparmos nosso espelho... mas talvez também ainda haja outras coisas para limpar antes de lavar as mãos.
25 de junho de 2007
Você: Herói da Ilha de Utopia
Diante de todo o exército de dúvidas, surge o maior de todos os seres. Um herói, nascido na ilha de Utopia, destruída pelo exército de Pérsimus na batalha do Sonho Impossível, se mostra radiante para levantar novamente a bandeira que um dia fora rasgada. Era chegada a hora de reviver a realidade que um dia nasceu em sua ilha, a verdade de que tédio e felicidade caminham separados em um lugar aonde o Bom Senso e o Respeito governavam com a mais serena rigidez. Nosso herói, irá contra as crenças, contra os que impôem o impossível e te dizem o quanto você é ou não capaz de mudar a realidade em que se encontra. No caminho de nosso herói, os ignorantes serão usados como soldados, armados de brutalidade e incapacidade de discernimento. Infelizes eram os que não ouviam as palavras do Bom Senso. O verbo no passado é agora a nossa esperança para o futuro! Mostraremos aos detestáveis, o quão úteis podem ser, se forem úteis! A Ilha de Utopia reerguerá, e mostrará a todos, porque utopia e impossibilidade são palavras diferentes! Só que de nada adiantará se houver apenas um herói... pois se assim for, confirmaremos a profecia de que a Utopia é o sentimento de um só, e a realidade, o de todos. Afinal, com todo esse mal, o que nos matará será nosso próprio e plantado vazio. Nossa arma letal, será então descobrir que em toda a nossa busca, a única coisa que torna o vazio suportável, é ter um ao outro. No dia em que pudermos sentir a diferença que uma pessoa pode fazer... passaremos então, a valorizar a todos, e nesse dia o herói de Utopia seremos todos nós, por termos feito a diferença.
Verdadeiras Mentiras
As vezes penso... que não gosto das pessoas que mentem, mas talvez eu goste mais delas do que as pessoas que falam só a verdade, só a realidade. Uma pessoa que vive de realidade, será cada dia mais real, mais verdadeira... sabemos que tudo o que ela fala quando nos conta uma história, é verdade. Uma pessoa imaginativa, que inventa coisas, sem prejudicar as pessoas, faz com que nunca saibamos se o que ela diz é mesmo ou não verdade... é como um pescador e aquele peixe grande. Não te fará mal acreditar que o peixe que ele pescou tinha realmente 20 kilos, fará mal a ele que de tanto dizer isso acabará tendo dor nas costas de tão real que tornou sua mentira. Isso talvez seja o mais divertido. Tornar reais as nossas próprias mentiras... nossas próprias invenções e fantasias, pois mentimos para fugirmos da realidade que nos esmaga... mas sabemos que se fosse ao contrário, fugiríamos do esmagamento fantástico buscando a corda do mundo real.
Talvez, antes... ou depois de morrer... a unica coisa que eu queira na vida é tornar real minha própria mentira. Eu só não sei o porquê. Talvez por puro prazer de viver a mais verdadeira mentira que eu carrego, sem ser chamado no final de um mero sonhador.
Talvez, antes... ou depois de morrer... a unica coisa que eu queira na vida é tornar real minha própria mentira. Eu só não sei o porquê. Talvez por puro prazer de viver a mais verdadeira mentira que eu carrego, sem ser chamado no final de um mero sonhador.
Se Deus criou o dia... o homem criou o dia-a-dia... e fez dela a sua maior ficção. Afinal, a historia que você vive e a história que você lê é a sua história... e a que você escreve é a sua história, mesmo que não sejam propriamente suas. Então talvez, eu tenha razão ao afirmar que mais interessante que uma vida inteira, apenas uma história de vida. Mas... mesmo que eu acredite, só me falta agora viver tudo isso que eu disse... quem sabe assim minha mentira se torne realidade.
Ver as coisas apenas como elas são nos faz tapados. Fugir da realidade, nos faz alienados. Vamos, vá além! Esqueça as convenções, suba e desça as escadas que quiser, correndo, andando, flutuando, contente, totalmente nu em relação ao seu cárcere. Equilibre o real e o imaginário... a mentira e a verdade e crie o seu próprio mundo, a sua própria vida. Afinal, é a sua história.
11 de junho de 2007
O Preço do Aperto
As mãos eram pequenas, dedos curtos e bem separados entre si. Arredondados. Unhas curtas, mas bem cuidadas, dando um traço de que não era um alguem descuidado. Mas, o pouco tamanho, fazia da mão algo inseguro, com poucos dedos para o mundo. Dedos contidos de tocar e encostar. Do outro lado, mãos grandes, grossas, gastas. Comparando-se as duas, era óbvio que o dinheiro ficaria menor, na mão maior. Para a mão menor, restava simular que era dinheiro de bom tamanho.
Os olhares fugidos do primeiro, decidiram-se pelas mãos. Mas não para tocar, apenas para empurrar o dinheiro. O recebedor não queria passar aperto... mas também, só queria um pequeno aperto, porque não teve? Esta sensação de não reconhecimento. De dinheiro contado. De olhares que fogem das coisas que devem ver.
As mãos não se tocaram... apenas mãos que entregam dinheiro, para mãos que recebem dinheiro. E mesmo que não fosse um jogo, não haviam vencedores também. O que entregava, parecia se envergonhar do que entregava. O que recebia, envergonhava-se do pouco que recebera. Mesmo assim, só queria um aperto de mão sincero, para que significasse que aquele dinheiro era por ele ser ele mesmo, e não por apenas ele ocupar o lugar de outro qualquer que poderia naquela ocasião estar recebendo o mesmo consolo. Só queria ser reconhecido verdadeiramente por existir ali, por doar seu tempo ali, enfim, por trabalhar ali. Mas... era apenas mais um dia de pagamento.
9 de junho de 2007
Aos que jamais foram, jamais poderão voltar a ser
Para os que já congelaram seu próprio coração, colocar o corpo ao vento gélido e cortante, não é prova de coragem. Para mim também não era, e lá estava eu descendo um monte, destino ao campo onde veria o fim da tarde. Tons de azul, rosa e vermelho se misturavam no céu do gelado outono, e no campo, nada de verde. O pouco que havia, era tom pastel, beje, cor de pele. Cor de pele sem brilho.
Era a mesma cor da pele do menino que estava sentado sobre o topo dos tocos de madeira. Eram sete tocos dispostos horizontalmente, dois no chão de areia, dois acima destes, mais dois acima destes últimos, e um, no centro, acima de todos, formando uma pirâmide semelhante as que formamos com cartas de baralho. E no topo. Havia um menino sentado. De lá me aproximei, e ele me fitou, sem me dizer nada, pois de sua boca apenas saíam vapores que saem de nossas bocas quando respiramos em dias de frio. Nem palavras, nem vapores, nada respondi a ele. Apenas o rodeei, e me pus a fingir estar fazendo algo. Para que não houvesse constrangimento, ele passou a fingir não me ver mais.
Lá estávamos nós. Eu e uma criança sentada no topo de um toco de madeira. No mesmo lugar, na mesma hora, porém, decidimos que seríamos invisíveis um ao outro. Este foi o acordo que selamos com vapores do frio e olhares desconfiados.
Sua pele em tom de grama sem brilho em fins de tarde de outono, estava coberto por um moletom avermelhado de manequim bem maior que o dele, provavelmente herdado do irmão mais velho. Uma calça tom de argila e um boné cor de velho completavam todo o vestuário de proteção aos ventos gelados. Sentado de forma em que todo o seu corpo se tocasse o máximo possível, ele esperava por algo, abraçado a uma bola de capotão. Era como se abraçá-la fizesse com que o frio diminuísse, mas logo notei que não era com o frio que ele queria acabar. Uma delas, em frente a ele.
E lá estávamos nós. Eu, uma criança sentada no topo de um toco de madeira, e uma árvore seca em nossa frente. Não pude perguntar a ela se ela podia me ver, mas como eu a podia ver, tenho a impressão de que ela não entrou no acordo de não-visibilidade. Com a falta de folhas para se agitarem com o vento, parecia que para aquela árvore seca, não existia o vento, pois os galhos permaneciam inertes. Ao olhar mais fixamente, percebi que a árvore nada mais era do que o nosso coração congelado de tristeza, solidão e falta de respostas para nossa própria existência.
Para os que já secaram, nada mais os enfraquece, pois chegaram no limite... era o destino daquela árvore. Para ela, nem o sol e a chuva de verão seriam capazes de reviver as folhas que outrora chacolhavam de alegria ao ver o mundo.
O mundo agora éramos eu, e aquele menino.
O menino remexia as pernas para avisar ao frio, de que só iria esperar mais um pouco. O frio não entendeu a mensagem, e se intensificou. Como forma de aliviar a angustia, ao menino restava apenas olhar no relógio as horas, para poder medir em algarismos a intensidade de sua solidão... Sem entender o porquê, eu também me atentei ao relógio, não ao dele, e sim ao meu. Não eram nem minutos, nem horas. Eram anos e anos de solidão cercada dos mais variados tipos de pessoas. Inclusive um menino sentado no frio.
O acordo cessou e ele me olhou de canto. Senti que estava me expulsando, pois era um atentado observar a vergonha de quem espera o que não virá. Não pude reagir a ele, então me retirei de lá sem olhar para trás... Ele não poderia fazer nada... estava apenas esperando. Mas não me contive, e ao olhar para onde vim, o vi cabisbaixo, abraçado mais intensamente ainda a sua bola, como quem parecia querer enfiá-la dentro de si, para preencher o que ali não havia. Talvez não tivesse motivos... mas mesmo que quisesse, me recusei a derrubar lágrimas, pois inventei a desculpa de que elas poderiam congelar meus olhos.
Em uma volta pelo lago do campo, fitei a lua mais amarela do que de costume, e a água com uma camada de neblina por cima. Haviam outras árvores, mas nenhuma tão seca quanto aquela. Para essas, era apenas uma má fase, de pouco verde, mas que cessaria no fim do inverno. Pessoas, não havia nenhuma. Eu estava sozinho... mas estava chegando a hora de que minha volta se completaria e enfim voltasse ao local dos tocos de madeira, aonde reencontraria minha silenciosa companhia. Então notei que o vento se acalmou. Restou apenas o ar frio em minha volta. E não muito longe, pude ver a silhueta do menino se distanciando, em passos curtos, tristes e frustrados.
A ironia me fez voltar a sorrir, para que pudesse elogiar o frio pela vitória sobre o menino, cansado de esperar pelo que não viria. Mas, a vitória de fato não existia. Uma última visão, botou em questão todo o meu conhecimento sobre a solidão... e eu botei em questão o ato daquele menino, e o que ele significaria para mim. Ao ver o menino ir embora, não havia notado, mas... parte dele ficou ali.
A bola. Ou talvez mais do que isso. Parte da essência daquele menino permaneceu, encostado nos tocos de madeira, parte da sua solidão foi deixada por ele, sozinha no relento do anoitecer. E após minutos de contemplação constante ao objeto deixado, senti de volta aquela dor que, anos antes, me dilacerou por tantas vezes. A dor daqueles que esperam algo que jamais virá. Talvez fora isso que o menino deixou naquela tarde, em formato de bola de capotão.
Voltei de onde vim. E lá ficaram... os tocos de madeira, a bola, e a árvore seca... seres brutos, aos quais classificamos como seres inanimados. Nem sempre tão diferentes de nós.
Era a mesma cor da pele do menino que estava sentado sobre o topo dos tocos de madeira. Eram sete tocos dispostos horizontalmente, dois no chão de areia, dois acima destes, mais dois acima destes últimos, e um, no centro, acima de todos, formando uma pirâmide semelhante as que formamos com cartas de baralho. E no topo. Havia um menino sentado. De lá me aproximei, e ele me fitou, sem me dizer nada, pois de sua boca apenas saíam vapores que saem de nossas bocas quando respiramos em dias de frio. Nem palavras, nem vapores, nada respondi a ele. Apenas o rodeei, e me pus a fingir estar fazendo algo. Para que não houvesse constrangimento, ele passou a fingir não me ver mais.
Lá estávamos nós. Eu e uma criança sentada no topo de um toco de madeira. No mesmo lugar, na mesma hora, porém, decidimos que seríamos invisíveis um ao outro. Este foi o acordo que selamos com vapores do frio e olhares desconfiados.
Sua pele em tom de grama sem brilho em fins de tarde de outono, estava coberto por um moletom avermelhado de manequim bem maior que o dele, provavelmente herdado do irmão mais velho. Uma calça tom de argila e um boné cor de velho completavam todo o vestuário de proteção aos ventos gelados. Sentado de forma em que todo o seu corpo se tocasse o máximo possível, ele esperava por algo, abraçado a uma bola de capotão. Era como se abraçá-la fizesse com que o frio diminuísse, mas logo notei que não era com o frio que ele queria acabar. Uma delas, em frente a ele.
E lá estávamos nós. Eu, uma criança sentada no topo de um toco de madeira, e uma árvore seca em nossa frente. Não pude perguntar a ela se ela podia me ver, mas como eu a podia ver, tenho a impressão de que ela não entrou no acordo de não-visibilidade. Com a falta de folhas para se agitarem com o vento, parecia que para aquela árvore seca, não existia o vento, pois os galhos permaneciam inertes. Ao olhar mais fixamente, percebi que a árvore nada mais era do que o nosso coração congelado de tristeza, solidão e falta de respostas para nossa própria existência.
Para os que já secaram, nada mais os enfraquece, pois chegaram no limite... era o destino daquela árvore. Para ela, nem o sol e a chuva de verão seriam capazes de reviver as folhas que outrora chacolhavam de alegria ao ver o mundo.
O mundo agora éramos eu, e aquele menino.
O menino remexia as pernas para avisar ao frio, de que só iria esperar mais um pouco. O frio não entendeu a mensagem, e se intensificou. Como forma de aliviar a angustia, ao menino restava apenas olhar no relógio as horas, para poder medir em algarismos a intensidade de sua solidão... Sem entender o porquê, eu também me atentei ao relógio, não ao dele, e sim ao meu. Não eram nem minutos, nem horas. Eram anos e anos de solidão cercada dos mais variados tipos de pessoas. Inclusive um menino sentado no frio.
O acordo cessou e ele me olhou de canto. Senti que estava me expulsando, pois era um atentado observar a vergonha de quem espera o que não virá. Não pude reagir a ele, então me retirei de lá sem olhar para trás... Ele não poderia fazer nada... estava apenas esperando. Mas não me contive, e ao olhar para onde vim, o vi cabisbaixo, abraçado mais intensamente ainda a sua bola, como quem parecia querer enfiá-la dentro de si, para preencher o que ali não havia. Talvez não tivesse motivos... mas mesmo que quisesse, me recusei a derrubar lágrimas, pois inventei a desculpa de que elas poderiam congelar meus olhos.
Em uma volta pelo lago do campo, fitei a lua mais amarela do que de costume, e a água com uma camada de neblina por cima. Haviam outras árvores, mas nenhuma tão seca quanto aquela. Para essas, era apenas uma má fase, de pouco verde, mas que cessaria no fim do inverno. Pessoas, não havia nenhuma. Eu estava sozinho... mas estava chegando a hora de que minha volta se completaria e enfim voltasse ao local dos tocos de madeira, aonde reencontraria minha silenciosa companhia. Então notei que o vento se acalmou. Restou apenas o ar frio em minha volta. E não muito longe, pude ver a silhueta do menino se distanciando, em passos curtos, tristes e frustrados.
A ironia me fez voltar a sorrir, para que pudesse elogiar o frio pela vitória sobre o menino, cansado de esperar pelo que não viria. Mas, a vitória de fato não existia. Uma última visão, botou em questão todo o meu conhecimento sobre a solidão... e eu botei em questão o ato daquele menino, e o que ele significaria para mim. Ao ver o menino ir embora, não havia notado, mas... parte dele ficou ali.
A bola. Ou talvez mais do que isso. Parte da essência daquele menino permaneceu, encostado nos tocos de madeira, parte da sua solidão foi deixada por ele, sozinha no relento do anoitecer. E após minutos de contemplação constante ao objeto deixado, senti de volta aquela dor que, anos antes, me dilacerou por tantas vezes. A dor daqueles que esperam algo que jamais virá. Talvez fora isso que o menino deixou naquela tarde, em formato de bola de capotão.
Voltei de onde vim. E lá ficaram... os tocos de madeira, a bola, e a árvore seca... seres brutos, aos quais classificamos como seres inanimados. Nem sempre tão diferentes de nós.
Não há fim para o ponto final
Tempo bom. Ponto. Final feliz. Descobrir que depois do antes só existe agora. É dele que pareço sempre fugir... sempre buscar. Ponto de fuga. Sem tempo. Sem pressa.
Quero ter mais tempo. Para perder mais tempo. Para ganhar mais tempo. Quero tempo pra pensar. Pensar pra matar o tempo. Conversar pra passar o tempo. Tempo pra ver o tempo passar.
Não há linha do tempo. Linha é um conjunto de pontos, mas o agora não tem plural. Não tem volta, nem avanço. Não tem estrada. O tempo é o ponto. De chegada, de partida, de ônibus, de interrogação... é tempo de agir, de parar, de pensar... é ponto final rolando ampulheta abaixo.
Pudera eu parar o ponto. Ainda é tempo. Pra mudar de vida. Pra mudar o dia... as horas.. os minutos... os segundos. Começando pelos primeiros segundos que chegam. Perdas de tempo... são apenas pontos perdidos. E o que será de mim... são apenas dúvidas de uma espiral de reticências. Três tempinhos...
Tempo pra esquecer enquanto é hora... agora. É tempo pra lembrar quando ir embora... corre. O ponto não pára. É tic-tac, não tum-tum. No coração, o ar entra pelo ponteiro maior, e sai pelo menor.
Pára o tempo. Bate o ponto. Bata o tempo. Sua vez de jogar. Contra o tempo. Marque um ponto. Enquanto é tempo. De chegar em ponto.
Ponteiros contam pontos que ainda temos pra soprar. Até que não haja mais tempo... pra contar os pontos. Nem pontos... pra contar o tempo. É o fim
Ponteiros contam pontos que ainda temos pra soprar. Até que não haja mais tempo... pra contar os pontos. Nem pontos... pra contar o tempo. É o fim
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