23 de março de 2018

O que Darcy Ribeiro não falou...



"A crise na educação não é uma crise; é projeto" - Esta frase famosa tornou Darcy Ribeiro um dos caras mais citados em memes de facebook no âmbito da educação, ficando pau a pau com Paulo Freire por exemplo.

Darcy Ribeiro não quis desenhar seu significado quando afirmou esta frase que atinge a educação de forma mais ampla. Ou se esqueceu, ou não notou, ou achou desnecessário.

Aos que não conhecem, podemos colocar Darcy Ribeiro dentro de um quarteto de pessoas que nos ajudam a comprovar que políticos não são uma classe maldita. Maldito é o político de carreira, que nasce político porque o pai era político, que descende do avô político e assim por diante. Ou aquele que nada, absolutamente NADA tem a acrescentar a não ser um incrível poder de negociação com todo tipo de gente visando seus próprios interesses. O nome disso no entanto não é político, é sem vergonha mesmo.

Esse quarteto imaginário (não existiu como uma Liga da Justiça ou um X-Men) trazia Darcy, Paulo Freire, Anísio Teixeira e Lauro de Oliveira Lima. E dentre os legados deixados estão uma visão muito mais humana da educação, a LDB que ainda que seja letra morta nos dias de hoje, dá respaldo para que se pense de verdade em prol da educação, a escola pública, livre e que garante direitos a todos e libertária. Foram alguns que comprovaram que ser político não é ser santo, nem bandido, e só faz sentido se for por uma causa pelas quais estudaram e se aprofundaram.

Mas o que Darcy não escreveu em sua frase? Faltou a ele explicar ou desenhar para os que entendem apenas metade do que está subentendido. Repare, ele não colocou a palavra "governo", o que não confere responsabilidade ao tal projeto e para muitos, o projeto em voga é tocado por agendas neo-liberais dos últimos 24 anos de governo pós reabertura democrática. Mas e antes? Antes não havia governo, apenas imposição por parte de uma classe armada, nem consideremos.

Quer dizer que a responsabilidade dessa projeto é dos governos? Não. É aí que mora o engano. O projeto de crise da educação é de responsabilidade de cada comunidade onde ela aperta. O projeto dos governos oligárquicos e autocratas é outro - desigualdade econômica com injustiça social. Eles só se incomodam com a educação quando algo muito grave está prenunciado. Seu projeto afeta questões salariais, de infra-estrutura, de saúde precária, baixo consumo e falta de aparelhos do Estado em todo país, mas esse projeto não afeta a inteligência, a mente e a vontade de quem sabe que a coisa toda tá errada e sabe como começar a mudar.

Como assim? Eles não precisam se preocupar em 'tornar a educação ruim'. Existem burocratas na sua escola? Existe um fiscal do MEC na sua escola? Existe um promotor de justiça pronto para pegar professor inovador? Guardas? Tribunal de exceção? Milícias? - Se bem que hoje em dia não seria difícil imaginar uma dessas coisas em uma escola, mas sabemos que na maioria não há. No máximo uma patrulha ideológica de um dos lados ou uma pegada religiosa fundamentalista por parte de alguns.

Onde quero chegar? Se não há coisas como essa na escola, quer dizer que o projeto de Crise Educacional nasce justamente onde ela mais afeta, é quase um auto-flagelo. A culpa então é dos professores, funcionários, secretários...? Não. Mas a solução parte destes.

Que pai será contra uma escola que ensina e aprenda a aprender? Que governo será contra um mundo de pais que são a favor de uma escola que ensina e aprenda a aprender? Que povo será contra um governo que seja a favor de uma escola que ensina e aprenda a aprender? - Por favor, se você der nome para algum boi destas perguntas então mantenha distância. Lauro de Oliveira Lima foi um dos caras que iniciou no Brasil a ideia na prática de que professor não ensina e sim, ajuda o aluno a aprender, repare na diferença crucial disso.

Para os que acharem utópico, me procurem para saber onde existem escolas (que não são prédios e sim um conglomerado de pessoas motivadas em razão da educação que até podem se reunir em um prédio) em que isso já acontece há décadas. Porque não se proliferam? Por que elas não podem fazer PELO outro o que o OUTRO não busca por si só.

A maioria das escolas públicas é tomada por um abandono de alma, nutrido diariamente por frases como "isso não tem jeito", "sempre foi assim", "a culpa é dos políticos ladrões", "os pais não se interessam", "funcionário público é tudo folgado". Experimente surgir sozinho numa escola dessas querendo fazer diferente e verá o martírio comer sua própria mente. Repare na palavra "sozinho", ela muda tudo.

Bom, para encerrar, gostaria de me ousar a complementar a frase de Darcy. "A Crise na Educação não é uma crise; é projeto " aceito por grande parte de uma comunidade educacional sem referências, inspirações e capacidade de aprendizado."

Aproveitemos enquanto ainda temos letras, que ainda que meio moribundas, no garantam tais transformações. Hoje, podemos dizer que grande parte das escolas estão fora da lei (segundo o que ilumina nossa constituição)... as escolas ruins. Se a gente demorar um pouquinho mais, o leite vai derramar e uma inversão de polos pode fazer com que as melhores iniciativas educacionais que temos hoje (ainda que raras ou não descobertas) tornem-se fora da lei. A BNCC, a má reforma do Ensino Médio, o Escola Sem Partido e o sucateamento da educação pública em prol de privatizações são os primeiros sinais que o leite tá na borda da panela.

Uma escola não é capaz de ensinar se não souber aprender; e a frase da imagem no começo do post é um lembrete.