24 de março de 2010

Empatia



A empatia é uma experiência humana. Ponto. Além dela estão duas coisas importantes, uma banalizada, o amor, e a outra esquecida, a compaixão, no qual a gente só chega se atravessarmos com amor, sabedoria e clareza uma experiência empática. A partir daí, a compaixão se manifesta na intencionalidade de que todos venhamos a sofrer menos.

Empatia é a capacidade de se colocar dentro do outro. É procurar entender o que vem a ser o outro em sua totalidade, tendo em vista, que você possa fazer parte dele, assim como ele de você. Ter empatia é se colocar no lugar do rico, sendo você pobre, é pensar se no lugar dele, diante da história dele, do contexto social dele, você teria as mesmas atitudes e pensamentos que tem sendo pobre. É se colocar na pele do deficiente físico sem acessibilidade nas ruas, e se colocar na pele de quem estaciona o carro em cima da vaga para deficientes e idosos.

Ser empático é ter um ator dentro de você, não quer dizer que você concorda com o outro, ou que é obrigado a aceitar certas atitudes, mas é respeitar os erros, é respeitar os acertos... A empatia não está em transformar, em converter, em querer tornar você algo diferente ou o outro em algo mais próximo de você. É simplesmente sentir o outro... para entender você, e porque não, todos os outros.

Me valendo de Boal, há um relato dele em que em um teatro bahiano, um encenador norte-americano foi convidado a ensinar Stanislawsky e a montar uma obra (Um Bonde Chamado Desejo - de Tennessee Williams). Os ensaios seguiam bem, mas uma cena parecia não querer sair boa, sempre que encenada resultava em algo pífio e sem convicção alguma. A cena era o que sucedia a grande luta entre Stella e Blanche, e Stanley Kowalsky... e para o encenador, faltava tudo naquela cena, o que lhe resolveu então recorrer para improvisações emotivas, mas que também não funcionou. Ele então falou a atriz:

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- "Vês? O problema é este: Stella lutou mortalmente com o marido, defendendo sua irmã. Mas ele pôs-se a chorar, ela comoveu-se muito ao vê-lo tão frágil, ele tomou-a nos braços, levou-a para o quarto, fizeram amor durante toda a noite, foi uma noite de loucura, e depois ela pôs-se a dormir... Ora bem: a cena começa então na manhã seguinte. Ela acorda depois de uma noite maravilhosa com muito sexo, está ainda um pouco cansadinha mas contente, sorri todo o tempo, está feliz. É uma mulher feliz. E isso é precisamente o que eu não sinto na tua intrepretação. Façamos assim: um exercício de memória emotiva: procura recordar a noite mais bela da tua vida, a noite mais plenamente sexual, porque é isso que falta à cena..."

A pobre atriz olhou por um instante e confessou:

- "Eu sou virgem, senhor".

Obviamente um momento em que ninguem soube o que fazer ou falar ocorreu, parecia que em tal caso, a memória emotiva não poderia ser utilizada. Então, certo ator deu uma sugestâo:

- "Não importa. Ela pode tentar lembra-se de algo que lhe proporcionou a maior felicidade... e pronto... depois faz-se a transferência... sei lá".

E funcionou. A cena saiu maravilhosa, todos ficaram encantados e então a atriz foi questionada de como conseguira se transformar tanto e fazer uma cena tão feliz, atraente e sensual. E ela respondeu:

- "Enquanto falávamos de sexo e de como Stanley era maravilhoso na cama, lembrei-me de uma tarde cheia de sol, quando comi três sorvetes seguidos debaixo de um coqueiro na praia de Itapoã..."

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E o que a técnica de memória emotiva de Stanislawski tem a ver com a empatia, afinal? Ora... temos contato com diversas pessoas, e 100% delas passou e viveu experiencias que nós não vivenciamos, e se transformou em um ser único, repleto de sentimentos e atitudes, que muitas vezes nós reconhecemos mas desrespeitamos no outro. Aquela sua amiga 'oferecida'... aquele seu conhecido 'rebelde'... aquela sua prima extremamente tímida... aquele seu colega de trabalho sempre bem humorado... o 'drogado'... o corrupto... o agressivo...

O que houve para que se tornassem pessoas com estas características tão marcantes que tantas vezes nos incomodam...? Provavelmente coisas que talvez não tenham ocorrido conosco, mas que conseguimos entender (ou não...). Não conseguimos nos colocar em seus lugares, por sermos 'virgens', mas como nos sentimos em situações pelas quais passamos que nos deixou bem humorado, alto astral, enfurecido, tímido, constrangido, depressivo, orgulhoso...

Nós temos muito a aprender, e principalmente, muito a lembrar, para que resgatemos diante do outro, a nossas tardes de sol, regadas a sorvetes, debaixo dos coqueiros de Itapoã.

E mais uma vez... a empatia é uma experiência humana. Ponto. Além dela estão duas coisas importantes, uma banalizada, o amor, e a outra esquecida, a compaixão, no qual a gente só chega se atravessarmos com amor, sabedoria e clareza uma experiência empática. A partir daí, a compaixão se manifesta na intencionalidade de que todos venhamos a sofrer menos.

17 de março de 2010

Continuação: não se esquecer do que é ser humano. [2]

Um reality show as vezes parece surgir em nossas vidas e situações tão semelhantes àquelas surgem, que você começa até a olhar para os lados para ver se não está sendo observado por outros. Mesmo sem fazer nada demais.

As oportunidades foram surgindo, e alguns aventureiros já não mais estavam por ali. Uma destas, em certo momento levou seu filho para lá, uma criança de 8 anos bem serelepe, mas saudável. Sentado ao meu lado, começou a fazer perguntas, a se interessar pela figura mais estranha no meio daqueles todos. Me lembro que, dentre os seus relatos, havia um em que ele havia quase ficado preso na porta do metrô, que a porta até machucava, mas era como se fosse só de brincadeirinha.

Dentre as oportunidades que surgiram, em algumas, somente eu me arriscava a algo, todos eram desconfiados demais, e eu estava isento desta sensação, apesar da tensão, me sentia a vontade, e a jovem a frente naquele momento, sentia isso e tentava passar aos outros a importância em não morrermos sem antes dizermos nossas últimas palavras. É o velho: arrisque! E não morra calado!

Alguns começaram a aceitar esta minha condição, outros já não. Aumentaram suas reservas e olhares e a juventude passou a ser vista como arrogância. O momento em que mais senti isso, foi em um relato que fiz sobre a importância de sabermos o que queremos ser. Por exemplo, muitas pessoas estão preocupadas em ter um emprego, mas não em SER um escritor, um médico, uma secretária ou qualquer outra coisa... o ter um emprego, garantirá o ter dinheiro, o que te dará direito a ter o que comer e a ter o que fazer quando bem entender, inclusive, a ter a incrível oportunidade de pagar seus impostos, para que ninguém mande na sua vida (todo brasileiro adora dizer isso!). Mas, isso não garante você a SER alguém. Ser, está muito distante de ter. Afinal, pobres e ricos podem ser. O ser é democrático e acessível a todos.

Este relato, botou em cheque a vida e os anos passados por muitos ali, e como me relataram, soou como uma ficha que cai. E isso nem sempre é bom. A coisa toda se seguiu, os aventureiros persistiram e todos saímos como vencedores... cada qual com novas armas para o futuro. Mas poucos me pareceram preocupados com o que serão. Os seres humanos necessitam ser!

Necessitam ser biologicamente, psicologicamente, socialmente, espiritualmente... humanos. E sabemos, que segundo a Antropologia, o ser só se torna humano rente a outro.

E isso significa muito. Independente do que fazemos, do que temos, do que pretendemos, o importante na verdade é o que somos. E ser, é algo mutável. É a vida da qual Guimarães Rosa diz ser mutável, afinal, somos criaturas que viemos ao mundo intermináveis. E que provavelmente sairemos do palco... intermináveis também. E foi como entrei e saí desta aventura... interminável, porem, diferente, maior, mais confiante... e mais preocupado em jamais me esquecer do que é ser humano.

Por hora pretendo manter o post-it na janela do dia-a-dia.