...tudo o que havia era chão molhado e cheiro de semana chuvosa. No entanto, naquela noite nem chovia mais, mas o frio fazia sair uma leve fumaça dos bueiros. Havia iluminação e gente transitando o tempo todo... mas ali: o tempo havia parado. Cachorro fora de hora, fora de si, respirava por puro costume, pois, de verdade, nem estava ali.
O cachorro estático se perdia em meio a tantos movimentos do mundo. Seu olhar se perdia a tantas cores e tons, sombras e luzes... e o seu silêncio se sobrepunha a todo e qualquer barulho daquela noite como todas as outras. Agitada, iluminada pelas luzes que se refletiam no chão molhado, aquela noite hipócrita como qualquer outra.
As pessoas iam da esquerda para direita, de cima pra baixo, subiam e desciam calçadas, estacionavam olhares e manobravam conversas com conhecidos indesejáveis e desconhecidos impressionantes. As mãos ou se cumprimentavam ou cumpriam com pagamentos... compravam, vendiam... o que as luzes dos muros mostravam. Marcas nada marcantes, para que esqueçam das coisas que marcam suas vidas. Marca que marcapasso-a-passo da vida medíocre que passa pelos olhos daquele cachorro.
Pano cinza, cor de feupa com mofo, cheirando a fedido, todo encardido cobrindo cachorro na beira da vida, na beira de todos os que andam sem saberem onde ir. Cachorro não se move, se não sabe onde ir, sabe que nem ir deve, por isso roda roda, até sentar no mesmo lugar em que rodou. De forma diferente, aquelas pessoas perseguiam seu próprio rabo, achando ser objetivos outrora traçados. Sem traços, com panos, cem anos, com traças... humanos... muito provável que o pano dure mais que o cão. Muito provável que ainda faça feder muitos seres vivos, brutos, vivos ou mortos. Para o pano não interessa... assim como a coroa foi feita para enaltecer o rei que ja nasceu nobre, o pano foi feito para empobrecer o que já nasceu pobre.
Idas e vindas, passos e tropeços, calçadas e hidrantes... personagens e cenários compondo a visão perdida de um cão cego de alma, pobre de espírito e... o corpo é apenas uma embalagem vazia.
Seu estado agora, fora invadido, uma senhora de bom sorriso sem motivos pra sorrir também parou diante do movimento do mundo, e estacionou o tempo para atentar ao cão. O cão sorriu sem dentes, sem alegria, sem vida e estiou a mão para a senhora, empurrando um pedaço de chapéu. Mãos pequenas e velhas demais para apenas 11 anos empurraram o chapéu e a culpa para a senhora. Ela haveria de pagar pelo que alguém não fez. O único suspiro do cão, atendido pela senhora, clamava sem força nem vontade, soando: "Tia, me dê um trocado...".
Moedadas e o mundo voltou a girar. Tudo voltou ao seu lugar e para sua ação, inclusive o olhar perdido de um ser vivo sem vida. Que fará todos olharem, quando seus olhos pararem de olhar, para contemplar em fim, o fim da vida, e o começo de um conforto incerto.
O cachorro estático se perdia em meio a tantos movimentos do mundo. Seu olhar se perdia a tantas cores e tons, sombras e luzes... e o seu silêncio se sobrepunha a todo e qualquer barulho daquela noite como todas as outras. Agitada, iluminada pelas luzes que se refletiam no chão molhado, aquela noite hipócrita como qualquer outra.
As pessoas iam da esquerda para direita, de cima pra baixo, subiam e desciam calçadas, estacionavam olhares e manobravam conversas com conhecidos indesejáveis e desconhecidos impressionantes. As mãos ou se cumprimentavam ou cumpriam com pagamentos... compravam, vendiam... o que as luzes dos muros mostravam. Marcas nada marcantes, para que esqueçam das coisas que marcam suas vidas. Marca que marcapasso-a-passo da vida medíocre que passa pelos olhos daquele cachorro.
Pano cinza, cor de feupa com mofo, cheirando a fedido, todo encardido cobrindo cachorro na beira da vida, na beira de todos os que andam sem saberem onde ir. Cachorro não se move, se não sabe onde ir, sabe que nem ir deve, por isso roda roda, até sentar no mesmo lugar em que rodou. De forma diferente, aquelas pessoas perseguiam seu próprio rabo, achando ser objetivos outrora traçados. Sem traços, com panos, cem anos, com traças... humanos... muito provável que o pano dure mais que o cão. Muito provável que ainda faça feder muitos seres vivos, brutos, vivos ou mortos. Para o pano não interessa... assim como a coroa foi feita para enaltecer o rei que ja nasceu nobre, o pano foi feito para empobrecer o que já nasceu pobre.
Idas e vindas, passos e tropeços, calçadas e hidrantes... personagens e cenários compondo a visão perdida de um cão cego de alma, pobre de espírito e... o corpo é apenas uma embalagem vazia.
Seu estado agora, fora invadido, uma senhora de bom sorriso sem motivos pra sorrir também parou diante do movimento do mundo, e estacionou o tempo para atentar ao cão. O cão sorriu sem dentes, sem alegria, sem vida e estiou a mão para a senhora, empurrando um pedaço de chapéu. Mãos pequenas e velhas demais para apenas 11 anos empurraram o chapéu e a culpa para a senhora. Ela haveria de pagar pelo que alguém não fez. O único suspiro do cão, atendido pela senhora, clamava sem força nem vontade, soando: "Tia, me dê um trocado...".
Moedadas e o mundo voltou a girar. Tudo voltou ao seu lugar e para sua ação, inclusive o olhar perdido de um ser vivo sem vida. Que fará todos olharem, quando seus olhos pararem de olhar, para contemplar em fim, o fim da vida, e o começo de um conforto incerto.

