Já era tarde, para o começo da minha tarde de segunda-feira, mas não era tão tardio a ponto de nada mais me inspirar mesmo tendo ido embora a luz do sol, que mal tinha visto naquele dia. Parado. Diante do semáforo, o dia corria, os carros de outro sentido corriam, mas eu estava parado, fazendo companhia para os que estavam ali junto de mim, naquele mesmo momento, partindo do mesmo lugar para destinos diferentes.

Meu automóvel era o quarto do grid na pequena ladeira de paralelepídedos do centro da cidade. Dois a minha frente, um ao meu lado... e embora todos parecessem voltar do cansaço, todos se encontravam ávidos pela largada que seria dada, para que tudo voltasse a seguir seu curso, seu ritmo... não há tempo para ficarmos parados. Mas afinal, para que tanta pressa? Se nem ao menos sabemos de onde viemos e para onde vamos... epa! Esses pensamentos são censurados em nossa rotina robótica de dias cinzentos.
Mesmo sendo tarde, também era cinzenta a tarde que nos encobria diante do semáforo. Carros cinzentos, construções cinzentas, asfalto cinzento... eram cinzas por todos os lados. Cinzentos e cinzentas perambulando para lá e para cá, cheios de rumo, vazios de importância entre si. Haviam outras cores. Ficávamos enrubrecidos de tanto amaldiçoarmos o vermelho incessante. Mas no instante seguido, tinhamos a recordação de que a cor que representa a esperança, é justamente o verde. Aquele mesmo!, o verde que nos devolverá para a pressa que nos impede de pensarmos, mas que diante do recesso, nos tomemos de inveja do verde alheio, desejando que ele se torne logo o mais justiceiro dos amarelos! Essa é a cor que separa os indecisos, dos seguros de si, pois são poucos os que o desafiam no tempo certo e mesmo aqueles, os seguros de si, muitas vezes por serem tão seguros, necessitam do seguro, para que sejam recompensados pelo excesso de segurança. Mas, os segundos corriam infinita, e interruptamente, assim como o redondo carmesim, tom de sol poente, que me fazia duvidar do fim de tarde. Mas tenho a certeza de que o sol havia se retirado. Era apenas o farol.
Mas minto. Abaixo do sinaleiro, uma menina, de idade da qual não faço idéia - mas era menina -, me chamou a atenção. Ela quebrou as regras do mundo cinzento, e transformou a simples ladeira de paralelepípedos em um verdadeiro grid de largada para carros mais furiosos do que velozes. Em frente a todos, desafiou a si mesma, e com movimentos circulares, tremulou tecidos em tons de azul. Não era nada majestoso, nem ela, nem o azul, nem os movimentos. O azul era desbotado e com o cinza da tarde ficava ainda mais inexpressivo. A menina, chamava mais atenção pelo modo original de se vestir do que pela própria aparência, já que parecia mais um monumento móvel tomada pelo cinza de toda tarde opaca. Os movimentos misturavam técnicas de porta-bandeira, com barman e largadeiros de corrida de automóveis (desconheço a classe profissional de quem exerce tal profissão), mas apesar de tudo, ela era capaz de executá-los de forma graciosa.
Como era possível? Como ela tinha a coragem de desafiar a toda aquela rotina, com algo a qual meus olhos não viam há muito tempo. Ela se vestia melhor do que muitos, e agia com uma coragem de poucos... mas isso não faria dela algo, talvez tão especial. Começando pelo lugar. Faixas de pedestre não são palcos. Por melhor que fosse a performance, carros não aplaudem, apenas buzinam. Transeúntes não pagam entrada e semáforo não é drive-in. E as bandeiras... o que significavam aquelas bandeiras? Com certeza a intenção dela não era a de se tornar uma vigilante do trânsito, nem muito menos, ter a suicida idéia de dar a tão almejada largada. Seria ela uma artista? Talvez sim... literalmente uma Artista de Ladeira de Paralelepípedos, uma profissão que talvez só ela tenha no mundo todo. Isso sim faria dela alguem mais especial... mas o que faria alguem especial ali? Naquela hora? Hah! Os cruéis obviamente pensariam: Quer chamar a atenção!
Chamou. Chamou mais que o semáforo. O azul não nos mandava parar, nem andar, nem estar alerta... apenas circulava sem significar nada. Ficamos atento... não sei a que, mas ficamos. A menina então talvez tenha se tornado menor que aquilo que ela significava naquele momento. Descaso, subhumanidade, criatividade, carência, capacidade, falta de oportunidade, coragem...
Então, voltei a mim novamente. Cercado de cinza, no quarto automóvel do grid da Ladeira de Paralelepípedos que São João deixou para nós... Ô São João, interceda pela sorte desta menina... pela dela, pela minha... pela de todos que aqui se encontram, parados diante de vós. Mas, não havia santo que fizesse a vida mudar, o sinal abrir e o coração tranquilizar. O pole-position tomou a iniciativa, e cedeu então o Grande Prêmio para a Menina. Não era troféu, mas talvez o metal fosse o mesmo... alumínio que reluz ouro, e que talvez valha centavos de um quilate. Através do vidro semi-aberto, as mãos não se tocaram, apenas trocaram moedas por movimentos de bandeira.
A atitude me botou em cheque. Porque eu pagaria por uma apresentação a qual não tive a escolha de assistir ou não? Não.. esse não foi o pensamento que me veio em mente, mas poderia ser. O que, na realidade, me subiu a cabeça foi o fato de admirar a coragem e desenvoltura da menina, que nada mais era, do que uma menina, como todas as outras. Poderia dar centavos para ela, que com certeza seriam mais vitais a ela do que a mim, mas que ao mesmo tempo poderiam não servir de nada. Poderia eu ser mais um do alto nível da socidade, aos quais quantias de três dígitos são meramente esmolas. Escolhi brincar de ser esse em meus pensamentos. O que eu diria para ela? O que ela diria para mim? O que ela faria com a quantia? Quando eu teria as respostas destas perguntas? Provavelmente nunca. Eu poderia então oferecer-lhe alguma oportunidade. E em histórias corriqueiras, esse seria o final feliz, mas... para um artista da rua, um trabalho convencional é nada mais nada menos que um atestado de óbito. Um cárcere. Talvez nem trabalho queira, afinal, já trabalha nas ruas... ele assim como qualquer um quer mais é o salário. E quem pagaria este? Eu.
Não... não... não.. sou contra. Isto é favorecer a exploração nas ruas, o trabalho infantil, mas ela nem era tão criança assim... mesmo menina, era mais mulher do que criança. Mas não... não posso financiar a pobreza, a falta de oportunidades e o descaso que o meu país dá a todos, mas mais para alguns. Por isso então... tenho que fingir que não vi. Tenho que estacionar o carro e descer para lhe dar uma orientação sobre a existência, e a vocação dela, além de uma aula de sócio-política para que ela entenda o porque dela estar ali e outros não. Para que ela possa tomar consciência do quão cruel é a realidade. Poderia também elogiá-la: Você maneja estas bandeiras como ninguém! Recomendarei este semáforos para amigos e conhecidos para que todos venham te ver!... Poderia ir contra meus princípios sem meios, nem fins, e apenas sacar o que tivesse no bolso e dar a ela.
Infelizmente para o mundo... o tempo que o vermelho perdura é insuficiênte para se entender a complexidade de tantas coisas, se obter tantas respostas e para tomar a decisão mais correta para o inédito momento. A então, esperança, surgiu para todos. O mundo novamente se abriu para todos aqueles que não aguentavam mais o recesso de roboticidade. O mundo se abriu para todos... menos para aquela menina. A esperança dela se encerrou quando o sol se foi... quando lhe pagaram ou não pagaram... quando todos partiram. E eu... desci ladeira abaixo, até que cruzei olhares com ela. Eu viraria para o mesmo lado em que ela se encontrava de mim... meu automóvel foi para a esquerda e meu olhar para a direita. Fugindo dela... da vida... da difícil vida... da difícil idéia de imaginar o quão difícil diversas vidas podem ser. Não decifrei o olhar dela, apenas o meu, de alguém que se envergonha de não obter uma solução eficaz para um problema secular, em porção de segundos... da vergonha do meu verde não ser o verde dela.
E então segui... e ela ficou. Ali, naquele semáforo. Aonde o neon amarelo anunciaria que em alguns instantes se iniciaria mais uma espetacular apresentação: O Show da Vida - A Bandeira e a Menina. Aberta ao público pagante, não-pagante, passante e não-passante. Última apresentação as onze da noite, quando então o semáforo se torna um pisca monocromaticamente amarelo, alternando em tom de aviso para que os carros não mais parem. O Show da Vida, voltará amanhã... na manhã de todo dia.