24 de novembro de 2018

A incrível história dos que demoram anos pra nascer

Lá no meio do gramado
todo verde, vivo e molhado
caíram sementes de algum descuidado. 


Oito foram tragadas
pela terra abraçadas
germinadas e agora iluminadas. 


Uma não. 
Caiu no chão,
local seco, duro, sem emoção. 

Concreto cinza 
ninguém passa, nada passa
Triste fim, uma desgraça.



A primeira macieira virou,
a terceira um pinheiro que durou,
a oitava tinha copa larga que abrigou...



E algo passou.
O tempo passou.
O vento passou.

A nona semente
soprada de repente
anos depois encontrou finalmente. 

Todas olharam
Por anos esperaram
Nada ocorreu até que se cansaram. 

Não adiantava.
Era só sombra, nada iluminava. 
A terra não tinha nada que alimentava. 


A primeira apodreceu e caiu.
A segunda entortou com o vento e caiu.
A terceira? Madeira! cortaram e caiu.
A quarta secou e caiu.
A quinta era pequena, foi esmagada e caiu.
A sexta queimou e caiu.
A sétima era fraca, se entristeceu e caiu.

Folhas, flores, frutas e galho
Fortes troncos agora em frangalho
Todas mortas aos pés do decrépito oitavo carvalho

E algo passou.
O tempo passou.
O calor do sol passou.

Explosão de vida após a morte
Átomos se recombinando no chão a própria sorte
E a nona semente, perseverante, forte, enfim achou seu norte


Encontrou água e alimento,
a luz do Sol a sua esquerda e o fim do esquecimento
distanciando-se pouco a pouco do infértil cimento.

Rachou, partiu, quebrou
Cresceu, dobrou, espalhou
E tipo Pirangi, o polvo de Luís Inácio, se tornou.

Até hoje se faz rima
Sem saber qual é a parte de cima
Do caju do cajueiro que avisa a todo instante que, de novo, o novo se aproxima.



Que há quem nasça,
quem só aparece depois que tudo passa
E quem só passou a existir depois, que um dia se encantou, e passou a achar graça.

30 de outubro de 2018

A PRIMEIRA PORTA DO LABIRINTO

Imagem relacionada
Imagine um cenário: uma sala de aula de paredes novas, porta nova, armários novos, lousa impecável, carteiras arrumadas, giz colorido, projetor, belos livros novos e apostilas cheias de conteúdo e uma linda cortina na janela com vista para o pátio. Dentro dela, apenas estas coisas. Não há ninguém. E assim passou um ano sem que nada acontecesse. 


Imagine agora este: uma árvore de copa larga em um campo de terra batida ao lado de um gramado. Um local bem pobre, lá longe há uns casebres velhos e feios. Sob a árvore cerca de 30 pessoas, de diferentes idades mas maioria crianças, reunidas debaixo de sombra para resolverem um grande problema: todo dia de manhã se nota uma ovelha a menos. Uma criança viu as pegadas, outra disse que vira e mexe escuta uivados a noite e um adulto notou alguns pingos de sangue. Eles estão reunidos para resolver este problema. Colocar cerca? Caçar o lobo? Fazer uma emboscada? Alguns dizem que preferem a cerca pois não querem matar o lobo, outros não querem cerca para não perderem a liberdade e terceiros querem uma aventura atrás do predador. O mais velho da roda disse que só decidirão quando houver consenso entre 100% dos que ali estão. E após a decisão, passou-se um ano sem que galinhas desaparecessem. 

Qual dos dois casos te parece a escola de hoje? É possível educar sem giz, lousa e apostila? É possível educar sem pessoas? 



Nossa realidade assiste globalmente a vertiginosa crescente da violência. Não são a maioria, mas são os que falam mais alto, os que impõem, os que ameaçam e vociferam. A democracia dos países está ruindo pois não se reinventou. A da Grécia antiga demorou séculos para se tornar a de Roma e outros séculos para se tornar a da França que duzentos anos depois se torna a democracia ocidental. Essa democracia ruiu aqui e lá. Não representa mais nada e não é capaz de traduzir a versatilidade do mundo em que estamos, tornando-se puramente a legitimação da maioria que não sabe o que fazer. Uma maioria que raramente é abastecida de educação, cultura, qualidade de vida e humanização. 

Falemos de Brasil: a maioria escolheu Collor, deu errado. A maioria escolheu FHC e hoje pensam que fizeram errado. O mesmo com Lula e Dilma após os escândalos. A maioria tirou Dilma e escolheu pela continuidade de Temer através de Jair. Em um país onde a educação ainda é privilégio e o tempo é usado para sobrevivência ou consumo a escolha da maioria sempre será comprometida, mas isso é aqui e fora. Globalizamos problemas.


Se dos 518 anos, menos de 50 são democracia participativa, convenhamos que não há cultura democrática no país. Cultura se cria através de repetições de gerações em gerações, é algo enraizado e orgânico, ou seja, não se pensa em ser democrático, SOMOS democrático como somos GENTE. Ninguém pensa em ser negro, se é e pronto. Ao menos deveria ser assim. Mas não é. 

Nossos empregos não são democráticos, a religião não é democrática, nossa família não é democrática (e talvez seja o único dos casos em que realmente não deva ser), mas principalmente: nossas escolas não são democráticas. E quando não se tem democracia, se tem uma hierarquia voltada para a autoridade e não para o respeito, criando assim um organograma sempre de cima para baixo. Quem pode manda, quem não pode obedece. 

Assim como a matemática pela matemática não serve de muito, e a gramática pela gramática não serve também, vejo que a democracia pela democracia também não serve. Ela ainda não nos é natural. Não temos a cultura da escuta, de assembleia, do círculo, nem do consenso sociocrático, nem de representantes e muito menos de participação ativa. O único poder conquistado foi um voto a cada quatro anos, que convenhamos, já se comprovou como insuficiente em todo o mundo.

Não vejo outra forma de luta a não ser a das comunidades que aprendem juntas. Escolas que em nada se pareçam com o que conhecemos hoje (em 99% dos casos), pois grande parte dos casos são escolas pensadas ao redor da estrutura e não do ser humano. A criança vem por último, depois dos sistemas, dos papéis, dos materiais, das provas, dos pais, da mensalidade, do evento, da secretaria, do professor... Como já disse, ainda não vi em termos grandes, greve de professores lutando pelo desenvolvimento integral. Já vi por salários, por prédios, por merenda... mas por educação integral ainda não. Por que? 

A grande maioria dos professores, eu incluso, não teve educação integral. Jamais vivenciaram democracia de verdade (fora urna, eleição e horário político). Não fazem ideia das questões neurológicas de aprendizagem. Nunca viram uma escola totalmente diferente das que estiveram na infância. Não sabem absolutamente nada sobre meditação, sobre consciência corporal, sobre a importância do brincar, sobre temperamentos... isso falando de crianças. Falando de escolas, não sabem de onde vem seus salários, de onde surgem as verbas, como se formam os conselhos e a força destes, muitas vezes propositalmente tirados de cena por administrações centralizadoras e donas da razão. Quantos vivenciaram e entenderam realmente as pedagogias que acham que aplicam? 

Agora que a maioria legitimou (fora da lei) a violência, o estupro, a ignorância, o preconceito, o desmatamento, o lesa-pátria e a vociferação, estamos em uma situação bem complicada. O sistema permite que isso tudo ocorra sem problemas, afinal a maioria escolheu. Se isso não ocorrer, a maioria irá reclamar; se isso ocorrer estamos todos perdidos e instaura-se a barbárie. 

Não tenho solução pensada. Sim, continuar nossa pequena luta do dia-a-dia é preciso, mas não é mais o bastante... Mas tudo bem, o dia vai raiar pra gente se inventar de novo. Chegou a hora de repensarmos muita coisa e a primeira dela será a cultura democrática. Não teremos séculos para aprender, pois a velocidade do mundo é maior e nosso tempo possível bem menor. Viver a democracia de forma participativa já é passado, se não o fez até agora, não tem problema, você agora está convidado a conhecer novas culturas políticas: a sociocracia-próxima como parte da democracia real e a economia de dádivas, que iniciarão a terceira década como formas de superar antigas dualidades falidas do século passado. 

O que você está fazendo hoje diferente do que fez ontem? A chave para a primeira porta está aí, e digo tranquilo que observei, compreendi e fui atrás de muitos que por ela já passaram... Hoje vejo que quem passou por ela precisa voltar pra chamar mais gente. Nas próximas não há exclusivismo, o ego pouco importa, assim como as abstrações pelas quais brigamos, e o melhor: não há nada acima de todos. 

8 de abril de 2018

Japonês Caipira

Assistindo a uma palestra do grande Ivan Vilela no FLADEM (Fórum Latino Americano de Educação Musical) na USP, sobre a Música Caipira, me vieram diversos insights e reflexões interessantes. Quando ele tocou a música "Saudades do Japão" dos Irmãos Kurimori (dupla descoberta em 1858) me vieram constatações reais do quanto realmente a cultura caipira dobrou culturas estrangeiras e fez com que até italianos e japoneses recém chegados se tornassem caipiras em vários cantos do país.

TALVEZ NEM TODO MUNDO SAIBA...:
- Caipira tem origem das línguas tupi e tem relação com "cortador de mato";
- O 'jeito' caipira de falar, é considerado um dialeto e ele preserva coisas muito interessantes do português arcaico e ainda mais sobre o Nheengatu;
- NHEENGATU foi um dialeto de origem Tupi que surgiu da Língua Geral Setentrional, ou amazônica em paralelo com a língua geral meridional. Essa língua foi a mais falada no Brasil até 1758 quando sofreu com a proibição por parte do Marques de Pombal, além de ter sofrido com a forte migração portuguesa.
- Nesse dialeto originalmente haviam características em relação a sempre haver vogal depois de consoante e do som do R. Por isso o tal sotaque caipira com PORTA, MUIÉ, OREIA... O sotaque caipira não é errado, é um dialeto e o Nheengatu foi até o século 18 a genuína Língua Brasileira criada por linguistas como Padre Anchieta.

Mas aqui no caso queria chamá-los para entender a questão do que falo no início. Escutem esta música no youtube dos Irmãos Kurimori. Eles não só se utilizam de toda a linguagem musical caipira como criam uma intertextualidade belíssima com canções, uma folclória japonesa, uma brasileira ao final e outra internacional (de origem escocesa), conhecida no Japão como "Hotaru no Hikari" ou "Valsa da Despedida". 

Além da boniteza da letra, da melodia e da simplicidade na forma da música, as alterações tonais entres as partes da música são muito interessante sempre que alternam entre a moda de viola que conta as saudades do japão e as intertextualidades musicais das quais falei.

Vejo hoje em dia como é difícil se encontrar casos de intertextualidade nas composições, principalmente no Pop, que joga tudo quanto é referência em um caldeirão e produz uma música destinada a um público pasteurizado.

Uma das coisas que Ivan deixou claro em sua palestra foi justamente a questão de como costumamos chamar certos tipos de música como "música regional". Ou seja, se não está no eixo SP-RJ-SALVADOR é música regional. Se é música regional ou caipira, não se caracteriza como MPB... mas porque? Ele ainda complementa se o jeito carioca de se falar, por exemplo, não seria um verdadeiro regionalismo?

É engraçado reparar em antigas colônias de imigrantes e notar que primeiro passam por um processo de perda de suas raízes (principalmente em grandes centros urbanos), vão se desligando do idioma, de costumes e culturas, e hoje se afastam também da cultura caipira que seus avós e batchans tanto trouxeram para o dia a dia e aos poucos vão falando o 'português standard', ouvem música 'standard' e tornam-se não regionais. Conhecidos também como pessoas de "lugar algum" com uma terrível sensação tardia de perda de identidades, crescendo achando normal comemorar Halloween e crendo que o Natal só existe como conhecemos depois do Pop Noel. Você já se perguntou como eram as principais festividades no Brasil antes dos 1900?

Ouvindo a música dos Irmãos Kurimori, muitas coisas passaram pela cabeça, e uma delas foi, mesmo com todo o turbilhão de informações e coisas passando por aí, poucas vezes vi um verdadeiro e genuíno caso de casamento entre culturas, que não seja forjado ou pra inglês ver e que realmente revele a dualidade de culturas do mundo se entrelaçando. Eram japoneses, eram brasileiros, eram caipiras e tudo isso vem a tona em uma composição feita a partir de uma vivência e não como se faz muito em tempos recentes: "Vou criar algo sobre uma coisa legal que eu nunca vi, nunca vivi nem estudei, mas que imagino ser interessante". Assim nascem muitas novelas da globo e muito produto de entretenimento americano repletos de preconceitos incontáveis...

23 de março de 2018

O que Darcy Ribeiro não falou...



"A crise na educação não é uma crise; é projeto" - Esta frase famosa tornou Darcy Ribeiro um dos caras mais citados em memes de facebook no âmbito da educação, ficando pau a pau com Paulo Freire por exemplo.

Darcy Ribeiro não quis desenhar seu significado quando afirmou esta frase que atinge a educação de forma mais ampla. Ou se esqueceu, ou não notou, ou achou desnecessário.

Aos que não conhecem, podemos colocar Darcy Ribeiro dentro de um quarteto de pessoas que nos ajudam a comprovar que políticos não são uma classe maldita. Maldito é o político de carreira, que nasce político porque o pai era político, que descende do avô político e assim por diante. Ou aquele que nada, absolutamente NADA tem a acrescentar a não ser um incrível poder de negociação com todo tipo de gente visando seus próprios interesses. O nome disso no entanto não é político, é sem vergonha mesmo.

Esse quarteto imaginário (não existiu como uma Liga da Justiça ou um X-Men) trazia Darcy, Paulo Freire, Anísio Teixeira e Lauro de Oliveira Lima. E dentre os legados deixados estão uma visão muito mais humana da educação, a LDB que ainda que seja letra morta nos dias de hoje, dá respaldo para que se pense de verdade em prol da educação, a escola pública, livre e que garante direitos a todos e libertária. Foram alguns que comprovaram que ser político não é ser santo, nem bandido, e só faz sentido se for por uma causa pelas quais estudaram e se aprofundaram.

Mas o que Darcy não escreveu em sua frase? Faltou a ele explicar ou desenhar para os que entendem apenas metade do que está subentendido. Repare, ele não colocou a palavra "governo", o que não confere responsabilidade ao tal projeto e para muitos, o projeto em voga é tocado por agendas neo-liberais dos últimos 24 anos de governo pós reabertura democrática. Mas e antes? Antes não havia governo, apenas imposição por parte de uma classe armada, nem consideremos.

Quer dizer que a responsabilidade dessa projeto é dos governos? Não. É aí que mora o engano. O projeto de crise da educação é de responsabilidade de cada comunidade onde ela aperta. O projeto dos governos oligárquicos e autocratas é outro - desigualdade econômica com injustiça social. Eles só se incomodam com a educação quando algo muito grave está prenunciado. Seu projeto afeta questões salariais, de infra-estrutura, de saúde precária, baixo consumo e falta de aparelhos do Estado em todo país, mas esse projeto não afeta a inteligência, a mente e a vontade de quem sabe que a coisa toda tá errada e sabe como começar a mudar.

Como assim? Eles não precisam se preocupar em 'tornar a educação ruim'. Existem burocratas na sua escola? Existe um fiscal do MEC na sua escola? Existe um promotor de justiça pronto para pegar professor inovador? Guardas? Tribunal de exceção? Milícias? - Se bem que hoje em dia não seria difícil imaginar uma dessas coisas em uma escola, mas sabemos que na maioria não há. No máximo uma patrulha ideológica de um dos lados ou uma pegada religiosa fundamentalista por parte de alguns.

Onde quero chegar? Se não há coisas como essa na escola, quer dizer que o projeto de Crise Educacional nasce justamente onde ela mais afeta, é quase um auto-flagelo. A culpa então é dos professores, funcionários, secretários...? Não. Mas a solução parte destes.

Que pai será contra uma escola que ensina e aprenda a aprender? Que governo será contra um mundo de pais que são a favor de uma escola que ensina e aprenda a aprender? Que povo será contra um governo que seja a favor de uma escola que ensina e aprenda a aprender? - Por favor, se você der nome para algum boi destas perguntas então mantenha distância. Lauro de Oliveira Lima foi um dos caras que iniciou no Brasil a ideia na prática de que professor não ensina e sim, ajuda o aluno a aprender, repare na diferença crucial disso.

Para os que acharem utópico, me procurem para saber onde existem escolas (que não são prédios e sim um conglomerado de pessoas motivadas em razão da educação que até podem se reunir em um prédio) em que isso já acontece há décadas. Porque não se proliferam? Por que elas não podem fazer PELO outro o que o OUTRO não busca por si só.

A maioria das escolas públicas é tomada por um abandono de alma, nutrido diariamente por frases como "isso não tem jeito", "sempre foi assim", "a culpa é dos políticos ladrões", "os pais não se interessam", "funcionário público é tudo folgado". Experimente surgir sozinho numa escola dessas querendo fazer diferente e verá o martírio comer sua própria mente. Repare na palavra "sozinho", ela muda tudo.

Bom, para encerrar, gostaria de me ousar a complementar a frase de Darcy. "A Crise na Educação não é uma crise; é projeto " aceito por grande parte de uma comunidade educacional sem referências, inspirações e capacidade de aprendizado."

Aproveitemos enquanto ainda temos letras, que ainda que meio moribundas, no garantam tais transformações. Hoje, podemos dizer que grande parte das escolas estão fora da lei (segundo o que ilumina nossa constituição)... as escolas ruins. Se a gente demorar um pouquinho mais, o leite vai derramar e uma inversão de polos pode fazer com que as melhores iniciativas educacionais que temos hoje (ainda que raras ou não descobertas) tornem-se fora da lei. A BNCC, a má reforma do Ensino Médio, o Escola Sem Partido e o sucateamento da educação pública em prol de privatizações são os primeiros sinais que o leite tá na borda da panela.

Uma escola não é capaz de ensinar se não souber aprender; e a frase da imagem no começo do post é um lembrete.

11 de maio de 2012

A Escola de hoje é a mesma de ontem

"Escola de Atenas" por Rafael Sânzio - Qual filósofo aí te inspira?
A escola... ahhh.. a escola! Estudando para um concurso esses dias, comecei a viajar na maionese (ou nem tanto assim) e decidi que iria parar de estudar naquele momento para refletir e teorizar acerca do modelo curricular que temos para a educação básica.

Veja bem... ele não faz o menor sentido! Nenhum lugar da VIDA faz você fragmentar as coisas dessa forma, a não ser que você vá se especializar em algo, o que não é o caso da educação básica. Não só o currículo, mas a estrutura, em nenhum lugar da VIDA você vê as pessoas segmentadas por idade. Imagine só a loucura, uma empresa com um andar só com pessoas de 19 anos e outro só pra pessoas com 43. Aliás, muito pelo contrário, os lugares onde eu mais aprendi foi onde mais houve mistura de idades, gêneros, culturas... essa coisa de isolar de forma homogênea até parece algum tipo de quarentena.

Vamos a LEI! LDB da Educação Brasileira, Título II:

Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Não é isso que vemos na escola. Aprender logarítmo apenas para aprender se encerra nisso. O mesmo para os cálculos estequiométricos da química; para a ênclise, a mesóclise e a próclise; para os estudos de cartografia; para as biografias dos grandes pintores; ou até para o sonolento estudo das doenças causadas pelos seres do reino protista. Tudo isso é muito importante que saibamos em algum momento, desde que isso seja significativo para nós. Imagine você querer ensinar sobre as Zaibatsus para um indígena interessado em resolver problemas e conflitos do seu tempo e espaço? Não há significado algum! A impressão que dá é que o que é falado na escola, no livro, na lousa, não tem absolutamente nenhuma ligação com o mundo real, e ainda queremos inventar "jeitos divertidos" de ensinar. O problema não tá no jeito, tá na relação, ao meu ver.

Na escola pouco se vê de fato em prol da cidadania e para o desenvolvimento pleno do educando, nem para o trabalho. Saímos da escola sem saber segurar uma chave de fenda, sem saber o cíclo da Lua, sem saber nada de política e dos nossos direitos, não conhecemos nosso próprio corpo... E a culpa disso tudo é a imitação por moldes educativos americanos e europeus lá de quando nem Alemanha tinha ainda. Não podemos seguir nesse caminho, quantos anos ainda se vão nessa mesmisse?

É bem verdade que eu só tenho 26 anos, poucos kilometros rodados e talvez muito pouco conhecimento para propor algum tipo de coisa, mas algo, melhor do que este sistema atual, eu tenho a certeza de que consigo idealizar sim. Realizar... são outros 500, porque escola não é pra ser sozinho!

Como deveria ser então?
1- Primeiramente, uma alteração nos ciclos. Faria um ciclo básico todo diferente, baseado na velha ideia de ensinar a pescar. Alguém que aprende a aprender, pesquisando, não precisa se encaixar neste molde educacional que não se encaixa pra ninguém. Por que? Se aprendêssemos o que realmente for importante na vida, não haveria essa constante necessidade por revisões e decorebas... aprenderíamos a história do Brasil como ela foi desde o início, afinal, as crianças podem ter um vocabulário pequeno e uma compreensão de mundo pequena, mas não são anencéfalos a ponto de entender que o Brasil não foi descoberto, nem ficou independente e nem que cuidou bem dos seus índios nestes 500 anos. Seriam seis anos para aprendermos o básico: a lógica, as linguagens (do corpo, do português, da música, das artes, do inglês e espanhol até...), as relações interpessoais, a emoção e o auto conhecimento, a sociedade, da cultura e do meio ambiente. 

2- O ensino médio não possuíria mais esta divisão de matérias pelas quais conhecemos hoje: (LP, Mat, Fis, Qui, Bio, Geo, Hist, Ed.Fis, Artes...) - Perdemos tempo aprendendo coisas de pouco uso e nenhuma absorção e deixamos de aprender o que realmente forma uma pessoa em sua totalidade, levando em conta suas quatro dimensões: material, psicológica, social e transcendental. Seria necessário que partíssemos do nosso viver e das necessidades próximas, porque a educação também é sobre resolver problemas e melhorar a vida das pessoas. A gente não pode achar que a meta de mais de 12 anos é passar em uma prova, pra estudar mais depois e ficar num ciclo interminável de teoria e desconexão com a vida.

3- Essa divisão deveria deixar de existir passando para uma integração a partir do momento em que começassem a fazer coisas, a pesquisar e elaborar ações pra fazer ciência e resolver problemas de vida:
Comunicação, Estudos Sociais, Lógica, Ciências do Corpo, Ciências da Natureza, Formação Democrática, Trabalhos Manuais, Estética e Projeto pra Vida.

Sim, muito disso já está nos currículos do PCN mas interpretados na forma de livros didáticos, apostilas, folhas e exercícios. A prática pouco existe. É como se a escola fosse uma grande simulação sem sentido em seu molde tradicional. Ela simula a realidade distorcida, ou seja, não serve nem como simulação, por isso sempre vem o jargão "a escola não prepara pra vida". Claro que não! Ela teria que já ser a própria vida!

4- A transversalidade dos conteúdos (que tanto pregam os PCN's e a LDB) seria a principal alteração. Isso tudo para que possamos realmente tentar abranger mais conhecimento, aumentar a eficiência do tempo escolar e não utilizarmos 12 anos da vida de alguem, para que saia apenas sabendo ler, escrever, fazer 3 operações (pq na divisão todo mundo tropeça) e a lembrar apenas a parte tosca da história do Brasil (do Tiradentes, do Dom Pedro, do Dia do Índio e dos Caras Pintadas!). Se continuar assim, logo a gente vai ter um Brasil pior do que já temos.

5- Também creio que o fim das aulas e das salas seja um bom acontecimento, dando lugar aos grupos de estudo que buscam o conhecimento para determinada problemática, onde professores não dariam mais aulas, estariam em corresponsabilização na construção do conhecimento mútuo através da orientação e da prática ética constante. Também não acredito na via de mão única que sempre tentamos seguir: se adotamos Paulo Freire, negamos Montessori; se adotamos a Euritimia do Waldorf negamos a de Dalcroze... não precisamos ser tão chatos como Hegel que para humanizar o pensamento ocidental tratou toda a cosmovisão oriental como tribalismo exótico. E sem fetichismo né... achar que um método serve pra todos é negar o ser humano na complexidade que tem. 

Acho que se eu imaginar já dá pra começar a trilhar um caminho diferente né? Porque, quando eu saí da escola falei que nunca mais voltaria e nem dez anos depois eu já tô voltando. Não sei o que dará esse concurso, mas se der, que não seja um repeteco de muitas gerações nesse vício ruim que se tornou a educação.

? Você educadora e educador, quem é sua referência na educação? Qual escola é referência para você? (Não responda isso com abstrações como exemplos de outros países para o qual nunca foi e nunca viu, pessoas que só viu na tv falando bonito e etc...), estar perto dos que inspiram é estar perto dos que fazem e fizeram. Espero perto deles estar.

24 de março de 2010

Empatia



A empatia é uma experiência humana. Ponto. Além dela estão duas coisas importantes, uma banalizada, o amor, e a outra esquecida, a compaixão, no qual a gente só chega se atravessarmos com amor, sabedoria e clareza uma experiência empática. A partir daí, a compaixão se manifesta na intencionalidade de que todos venhamos a sofrer menos.

Empatia é a capacidade de se colocar dentro do outro. É procurar entender o que vem a ser o outro em sua totalidade, tendo em vista, que você possa fazer parte dele, assim como ele de você. Ter empatia é se colocar no lugar do rico, sendo você pobre, é pensar se no lugar dele, diante da história dele, do contexto social dele, você teria as mesmas atitudes e pensamentos que tem sendo pobre. É se colocar na pele do deficiente físico sem acessibilidade nas ruas, e se colocar na pele de quem estaciona o carro em cima da vaga para deficientes e idosos.

Ser empático é ter um ator dentro de você, não quer dizer que você concorda com o outro, ou que é obrigado a aceitar certas atitudes, mas é respeitar os erros, é respeitar os acertos... A empatia não está em transformar, em converter, em querer tornar você algo diferente ou o outro em algo mais próximo de você. É simplesmente sentir o outro... para entender você, e porque não, todos os outros.

Me valendo de Boal, há um relato dele em que em um teatro bahiano, um encenador norte-americano foi convidado a ensinar Stanislawsky e a montar uma obra (Um Bonde Chamado Desejo - de Tennessee Williams). Os ensaios seguiam bem, mas uma cena parecia não querer sair boa, sempre que encenada resultava em algo pífio e sem convicção alguma. A cena era o que sucedia a grande luta entre Stella e Blanche, e Stanley Kowalsky... e para o encenador, faltava tudo naquela cena, o que lhe resolveu então recorrer para improvisações emotivas, mas que também não funcionou. Ele então falou a atriz:

----

- "Vês? O problema é este: Stella lutou mortalmente com o marido, defendendo sua irmã. Mas ele pôs-se a chorar, ela comoveu-se muito ao vê-lo tão frágil, ele tomou-a nos braços, levou-a para o quarto, fizeram amor durante toda a noite, foi uma noite de loucura, e depois ela pôs-se a dormir... Ora bem: a cena começa então na manhã seguinte. Ela acorda depois de uma noite maravilhosa com muito sexo, está ainda um pouco cansadinha mas contente, sorri todo o tempo, está feliz. É uma mulher feliz. E isso é precisamente o que eu não sinto na tua intrepretação. Façamos assim: um exercício de memória emotiva: procura recordar a noite mais bela da tua vida, a noite mais plenamente sexual, porque é isso que falta à cena..."

A pobre atriz olhou por um instante e confessou:

- "Eu sou virgem, senhor".

Obviamente um momento em que ninguem soube o que fazer ou falar ocorreu, parecia que em tal caso, a memória emotiva não poderia ser utilizada. Então, certo ator deu uma sugestâo:

- "Não importa. Ela pode tentar lembra-se de algo que lhe proporcionou a maior felicidade... e pronto... depois faz-se a transferência... sei lá".

E funcionou. A cena saiu maravilhosa, todos ficaram encantados e então a atriz foi questionada de como conseguira se transformar tanto e fazer uma cena tão feliz, atraente e sensual. E ela respondeu:

- "Enquanto falávamos de sexo e de como Stanley era maravilhoso na cama, lembrei-me de uma tarde cheia de sol, quando comi três sorvetes seguidos debaixo de um coqueiro na praia de Itapoã..."

----

E o que a técnica de memória emotiva de Stanislawski tem a ver com a empatia, afinal? Ora... temos contato com diversas pessoas, e 100% delas passou e viveu experiencias que nós não vivenciamos, e se transformou em um ser único, repleto de sentimentos e atitudes, que muitas vezes nós reconhecemos mas desrespeitamos no outro. Aquela sua amiga 'oferecida'... aquele seu conhecido 'rebelde'... aquela sua prima extremamente tímida... aquele seu colega de trabalho sempre bem humorado... o 'drogado'... o corrupto... o agressivo...

O que houve para que se tornassem pessoas com estas características tão marcantes que tantas vezes nos incomodam...? Provavelmente coisas que talvez não tenham ocorrido conosco, mas que conseguimos entender (ou não...). Não conseguimos nos colocar em seus lugares, por sermos 'virgens', mas como nos sentimos em situações pelas quais passamos que nos deixou bem humorado, alto astral, enfurecido, tímido, constrangido, depressivo, orgulhoso...

Nós temos muito a aprender, e principalmente, muito a lembrar, para que resgatemos diante do outro, a nossas tardes de sol, regadas a sorvetes, debaixo dos coqueiros de Itapoã.

E mais uma vez... a empatia é uma experiência humana. Ponto. Além dela estão duas coisas importantes, uma banalizada, o amor, e a outra esquecida, a compaixão, no qual a gente só chega se atravessarmos com amor, sabedoria e clareza uma experiência empática. A partir daí, a compaixão se manifesta na intencionalidade de que todos venhamos a sofrer menos.

17 de março de 2010

Continuação: não se esquecer do que é ser humano. [2]

Um reality show as vezes parece surgir em nossas vidas e situações tão semelhantes àquelas surgem, que você começa até a olhar para os lados para ver se não está sendo observado por outros. Mesmo sem fazer nada demais.

As oportunidades foram surgindo, e alguns aventureiros já não mais estavam por ali. Uma destas, em certo momento levou seu filho para lá, uma criança de 8 anos bem serelepe, mas saudável. Sentado ao meu lado, começou a fazer perguntas, a se interessar pela figura mais estranha no meio daqueles todos. Me lembro que, dentre os seus relatos, havia um em que ele havia quase ficado preso na porta do metrô, que a porta até machucava, mas era como se fosse só de brincadeirinha.

Dentre as oportunidades que surgiram, em algumas, somente eu me arriscava a algo, todos eram desconfiados demais, e eu estava isento desta sensação, apesar da tensão, me sentia a vontade, e a jovem a frente naquele momento, sentia isso e tentava passar aos outros a importância em não morrermos sem antes dizermos nossas últimas palavras. É o velho: arrisque! E não morra calado!

Alguns começaram a aceitar esta minha condição, outros já não. Aumentaram suas reservas e olhares e a juventude passou a ser vista como arrogância. O momento em que mais senti isso, foi em um relato que fiz sobre a importância de sabermos o que queremos ser. Por exemplo, muitas pessoas estão preocupadas em ter um emprego, mas não em SER um escritor, um médico, uma secretária ou qualquer outra coisa... o ter um emprego, garantirá o ter dinheiro, o que te dará direito a ter o que comer e a ter o que fazer quando bem entender, inclusive, a ter a incrível oportunidade de pagar seus impostos, para que ninguém mande na sua vida (todo brasileiro adora dizer isso!). Mas, isso não garante você a SER alguém. Ser, está muito distante de ter. Afinal, pobres e ricos podem ser. O ser é democrático e acessível a todos.

Este relato, botou em cheque a vida e os anos passados por muitos ali, e como me relataram, soou como uma ficha que cai. E isso nem sempre é bom. A coisa toda se seguiu, os aventureiros persistiram e todos saímos como vencedores... cada qual com novas armas para o futuro. Mas poucos me pareceram preocupados com o que serão. Os seres humanos necessitam ser!

Necessitam ser biologicamente, psicologicamente, socialmente, espiritualmente... humanos. E sabemos, que segundo a Antropologia, o ser só se torna humano rente a outro.

E isso significa muito. Independente do que fazemos, do que temos, do que pretendemos, o importante na verdade é o que somos. E ser, é algo mutável. É a vida da qual Guimarães Rosa diz ser mutável, afinal, somos criaturas que viemos ao mundo intermináveis. E que provavelmente sairemos do palco... intermináveis também. E foi como entrei e saí desta aventura... interminável, porem, diferente, maior, mais confiante... e mais preocupado em jamais me esquecer do que é ser humano.

Por hora pretendo manter o post-it na janela do dia-a-dia.

15 de dezembro de 2009

Lembrete: não se esquecer do que é ser humano. [1]

Essa vida sempre nos pregando peças. E que peças! No sossego de casa, me chega uma correspondência (não é email não!) me fazendo um convite extremamente inusitado. Mas tudo bem... quando o jogo tá zero a zero, a gente aceita qualquer truco.

E lá fui eu! Começando mais uma estranha jornada, que adentrariam 2 meses.

Bom... segui todos os caminhos do mapa que chegou em casa e fui parar em um lugar pelo qual já passava diversas vezes, mas que nunca precisei entrar. Muitas pessoas que conheço passam horas diariamente dentro deste lugar, mas não fui lá para ver nenhuma delas... muito pelo contrário: era quando elas saíam que tudo começava.

O primeiro impacto foi instantâneo ao entrar: quase 30 mulheres... e 1 homem. Não era um harém não... muito longe disso, pois no segundo impacto: lá estava eu - o mais novo (de loooonge) dos aventureiros.

Pobreza... dificuldades... dilemas de família... dilemas da terceira idade... dilemas femininos... deficiência física... doenças. Foi isso que encontrei nos primeiros dias de jornada, entretanto o que mais me impressionou foi a baixa auto-estima. Multiplicada por 30 é um clima tão pesado que seus músculos entram em uma constante tensão! Não há vacina, nem sistema imunológico que possa resistir a isso nos primeiros dias... confesso: foi o ar mais pesado que eu já respirei. E deixo aqui uma dica... eu não estava em um hospital, nem em um velório, nem em um asilo, nem em um campo de refugiados ou presídio.

Andamos com pessoas que gostamos, conversamos com amigos que nos fazem bem, convivemos em casa com familiares que conhecemos há muitos anos... as pessoas de quem não gostamos estão ali... as vezes até falamos com elas, mas não pretendemos estreitar os laços. Ou então, aquelas pessoas que até parecem boas pessoas, mas que ao falarem, ao agirem, ao pensarem, nada combinam com você. Parece que o problema está aí.

Era um lugar estranho, repleta de pessoas estranhas de uma bolha completamente diferente da minha. Sobre o que afinal eu poderia conversar com estas pessoas, se logo de cara, elas me olhavam, e me viam como um ícone da imbecilidade e da inutilidade da juventude. Se a juventude é isso ou não... deixo com vocês, mas eu não podia aceitar aquilo, era obrigação e questão de honra provar que eu não era aquilo tudo!

Duas semanas silenciosas... eu entrava... eu saía... falava menos que o necessário. Era essa a rotina. Não tinha outra saída a não ser mapear tudo aquilo, todo aquele território e todos aqueles seres desconfiados. São desconfiados e muito! Dá medo de qualquer coisa...

Bom.. aos poucos então pude me mostrar um pouquinho e os olhares começavam a mudar, rumaram do desprezo para a desconfiança. Sim, agora eles já não pensavam mais que eu era o ser jovem iconográfico e sim "e se ele não for...". Há! Era a chance! A porta se abriu, e eu entrei e escancarei tudo, como todo jovem imbecil faria! Foi certeiro, e os imbecis acertam! A primeira barreira foi transposta... agora eu já era aceito como um membro da sociedade ali existente! A jornada, já no mês de novembro, passaria para a segunda etapa...

(continua...)

13 de outubro de 2009

Um completo charlatão da advinhação


Olhando por uma grande janela na sala de aula, a calmaria da tarde me fez pensar...

Adoramos planejar as coisas! Faz parte do nosso jeito de ser e de querer que as coisas aconteçam. Planejar é como escrever o futuro: vai acontecer! Pensando assim, penso como sou um completo charlatão nas artes da adivinhação... premonição... ou planejamento. Nem a dez, nem a cinco, nem a dois anos atrás metade das coisas que me acontecem hoje estavam dentro do planejado.

A dez anos atrás, com 13 anos, eu ainda passava pelas fases mais escuras que já tive, sem ver graça em nada, transitando entre casa e escola (a contra gosto), com aquela vontade insana de um dia ver tudo aquilo ir pelos ares... com aquele desejo louco de acordar em um lugar completamente diferente. Uma época em que ter amigos... era um dos maiores motivos de vergonha. Sim... era vergonhoso ter amigos... depender afetivamente de alguém... se mostrar vulnerável para alguém. Certo era depender apenas de mim... e me responsabilizar por tudo o que me ocorria. Para falar a verdade.. nem se quer lembro o que eu pretendia para o meu futuro naquela época, mas tinha apenas a certeza de que não gostaria de estar naquele lugar... e isso eu cumpri conforme o planejado. Que orgulho!!!

A cinco anos atrás... 18 anos. A tal maioridade! Que alegria, agora não serei mais uma criança. Deus do céu! Não se enganem,é nessa idade que o verdadeiro pardieiro começa. Era momento de transição... estava para sair do inferno (físico) e me instalar em um lugar novo, desconhecido, repleto de incógnitas. O que seria de mim? Antes de qualquer coisa, era necessário passar por um período de completa reflexão (entenda-se depressão). Dias inteiros enfurnados no quarto estudando sem motivação alguma (numa casa com uma piscina deliciosa que pouco aproveitei).

De noite vinha para o computador ou para a televisão. Horas e horas no orkut... caçando pessoas que pudessem colaborar com essa minha nova localização. E... confesso, só tenho que agradecer ao Turco que criou essa rede. Sem ele... a cadeia não teria tido início, e o futuro não existiria como é o presente hoje. A cinco anos atrás, começaram os anos de revolução! E o que eu queria para mim no futuro? X não aconteceu... Y não aconteceu... Z não aconteceu. Todas as coisas planejadas que eu tentei, ou nem puderam acontecer, ou me causaram desilusão de alguma forma. Tudo o que consegui de bom... veio de uma hora para outra, simplesmente ou aparentemente do nada, e eu apenas tive que dizer: "Tá bom... eu vou."

Há dois anos, novamente em uma outra casa, na mesma cidade, só que sem piscina. Poxa... agora que eu tenho todo o vigor de aproveitar, convidar os amigos e amigas. Pelo menos tenho uma varanda!!! Será que ainda a terei daqui há uns anos? (Hmmmm... até trocaria ela por uma piscina hahaha!!! Mas por hora gosto dela!) Pessoas e seres daquela época não vejo mais. Partiram para todo o tipo de lugar. Outros chegaram, aos montes, como num navio de imigrantes japoneses. Mas há dois anos atrás, em uma rotina de trabalho chata e desestimulante, eu provavelmente não pensava seriamente sobre o futuro, apenas ganhava o tal dinheirinho para o dia-a-dia, continuava o que já fazia, namorava... em um tipo de vida, digamos assim: "Quando eu for demitido, eu penso no que farei!" - Como se torcesse a cada dia para que isso acontecesse em algum momento... qualquer momento.

E então... aconteceu! No começo deste ano a rotina acabou! Para os que se queixam: "não aguento ficar parado!" Também não! Por isso corro... treino... toco... danço... pedalo... estudo... está ótimo assim! Sinceramente, não sinto falta alguma daquela rotina de "cidadão orgulhoso por trabalhar para pagar suas contas". Nós brasileiros adoramos frases nas quais nosso maior orgulho é pagar as contas!

Realmente essa é uma das minhas maiores desilusões: por maior orgulho que eu tenha em não dever para ninguém, a vergonha de pagar contas feito tonto é imensurável mesmo sabendo da importância de cada imposto para mim. Mas voltando, graças a todos os ocorridos, me orgulho de não servir para ter horário fixo, de não ter telefone comercial para escrever nas fichas... Mesmo imerso em diversos problemas com a falta de verba, indo parar em coisas completamente incertas (e talvez por isso mais interessantes), talvez eu sinta prazer com o medo do futuro.

Lançado a toda sorte... meu futuro só me guarda duas coisas: liberdade e morte.

20 de agosto de 2009

'Devagarções' - Verdades, Possibilidades e Vivências

Você sabe o que é a verdade?
A verdade realmente existe?
Precisamos da verdade?

Parece que estou falando de Deus.

Se você saísse da caverna, você voltaria?
Se voltasse, tentaria convencer aos outros?
E se você, que não saiu, observasse ao que saiu, retornar?
Você o mataria por achar que ele está subvertendo a ordem?
Você o seguiria? Ou simplesmente desacreditaria e permaneceria lá...

Parece até que estou falando de Platão... ou... da Matrix.

E se sua vida for uma completa ilusão?
E se ao morrer, você na verdade, está acordando?
Talvez os seus olhos nuncam tenham lhe mostrado a realidade...
Talvez o que falou, tenha ouvido de forma totalmente alterada pelos outros...

Parece até que estou falando de Inception.

A Era de Gêmeos, talvez nada tenha a ver com nossa estadia aqui.
Adão e Eva? Vai ver eram eles lá na caverna.
Era de Touro... Áries... Peixes...
Separação de mar, um cordeiro crucificado que ressuscita, uma igreja de pescadores...
Há quem diga, que quando o homem derramar a água do jarro, o homem se tornará um ser essencialmente fraternal, capaz de solucionar tudo de forma justa e igual.
Talvez seja o dilúvio... o 2012... mesmo que esse ainda esteja longe da tal Era de Aquário.

Afinal... de que adianta acreditar em A ou B? Eles não tem respostas que nos satisfaçam e em certo campo fogem principalmente das perguntas.

Existem filósofos, religiões, cientistas para defender o A, e outros potencialmente iguais para B.
Há livros importantíssimos discutindo os paradoxos do A e B e a cada um que você lê... menos respostas você tem. Mas, buscaremos sempre, é a condição humana da curiosidade e da fé - curiosidade que nos leva para a fé na ciência ou para a ciência da fé. Afinal, acreditar parece importante.

Embora eu ache que viver seja mais.

12 de agosto de 2009

Uogokoro areba mizugokoro ari

Estou sempre nadando!! Procuro nadar mais pra cima, mas as vezes nado para baixo.

Acredito ser meio místico, um tanto quanto desapegado, um pisciano que provavelmente em algum outro tempo e outro lugar já viveu 11 vidas... e pareço ter chegado em minha última! Pelo que dizem, o pisciano, por ser o último signo é a última reencarnação. Portanto, fico feliz em saber que será a última, mesmo sem lembrar das 11 anteriores.


Tenho um mundo interno, cheio de fantasias em todos os planos. E quando a coisa não está boa [quase sempre], eu acho que nado para lá, e não há quem me tire. Se consigo canalizar minha intuição e sensibilidade, consigo captar o que está em volta e, com isto, sentir o ambiente, me adaptar e crescer. E creio eu, fazer a diferença. Porque quando um pisciano resolve ser brilhante, detona até o mais leãozinho mais invocado, deve ser o momento tubarão. Mas o problema é quando resolve. E se resolve... hehehe...

Sei me sacrificar pelos outros... mas também sei ser egoísta... a verdade é que não controlo nenhuma das duas coisas. Quando vejo, já fiz. (ou não fiz)

Sou da noite, e tenho tendências ao lado b ... e de coisas que destroem. Não bebo, não fumo e não me drogo... e confesso ter raiva e um preconceito enorme com as pessoas que o fazem (principalmente perto de mim). Mas sabemos que existem outras coisas que causam males semelhantes... Ou seja, tudo que traz o alívio momentâneo para as dores do dia-a-dia.

Talvez por viver na água, acredito que jamais seja possível me ver chorar. Não é possível distinguir a lágrima da água do mar, aliás, ambos são salgados.

E não sei dizer tchau. Escreveria para sempre, conversaria para sempre, treinaria para sempre, ficaria com as pessoas que gosto para sempre, fantasiaria sempre, correria pra sempre, ficaria anos sem tomar banho e quando entrasse, ficaria a mesma quantidade de anos sem sair do chuveiro. Me atrasaria para sair de casa, e obviamente para voltar.

Desejo sempre, na maior animação, nunca ir dormir... mas quando for dormir, provavelmente jamais irei querer acordar. Hmmm... deve ser porque é a última encarnação. De certa forma, me sinto aliviado.

20 de julho de 2009

Partir - Ir para outro lugar ou fragmentar-se?


3h45 da manhã... e não pude me conter. Evito isso, mas... o momento trás muita inspiração depois de 2 horas de reflexão frente a televisão.

A vida realmente é algo extremamente frágil. Pessoas vivem, e basta um acontecimento, e não vivem mais. Estão lá, estáticas, frias, acinzentadas, com aquela expressão serena que por sinal é bem diferente da serenidade de quando dormimos. Portanto, para mim, ao morrer, não estamos dormindo.

Ao se passar por situações de morte de alguem próximo, tomamos conhecimento de como as coisas realmente funcionam. Ou seja, perdemos um pouco daquele romantismo de finais felizes, ou então de que a morte é um evento desesperador, algo raro... na verdade não. A morte ocorre em número exatamente igual ao da vida. As pessoas partem, como mostra a história dos peixes que nadam contra a correnteza e morrem, peixes que cheguei a ver quando morava na cidade dos Peixes Roncadores. A piracema, é o evento dos peixes que sobem a correnteza para desovar, e resultar na vida de mais peixes.

Nadamos, nadamos, e sabemos o que nos espera, também sabemos o que espera a todos. Mas mesmo assim nadamos. E, como espectador da vida e da morte, reconheço que muito do meu ângulo de visão da vida mudou após assistir a morte do meu pai. Sim... não foi um acidente, algo que acontece inesperadamente de uma hora para outra. Foi um processo que durou meses, e talvez a verdadeira morte lhe tivera chego antes mesmo da morte que todos ali viram no último momento. Aquilo apenas foi o encerramento. Uma vida de saúde... voltada para o trabalho... e cheia de projetos. Assim era. Os projetos não se realizaram, as frustrações surgiram e veio então a hora de partir. Apesar de todas as boas lembranças (muitas) e de todas as coisas boas vividas, aprendidas e ensinadas, a morte não parece algo feliz. Nem triste. Apenas... uma partida confortável para quem vai, e dilaceradora para quem fica.



Reconheço desde pequeno que jamais senti medo de morrer, pelo contrário, a vida me mete milhões de vezes mais medo do que a morte. Mas se a incerteza do que virá atrás da porta existe... realmente... a morte se torna algo digno de desconfianças, de lágrimas, capaz de carregar uma magnitude muito além do que realmente é: uma simples passagem.

Quando alguem morre, e nos deparamos, com o corpo, em sua última imagem, realmente falta algo. Que me perdoem os atores do filme, mas, nenhuma maquiagem para mortos será capaz de lhes tirar o ânimo, aquele algo, talvez alma, que nos dá o taxativo: vivo. Nesse momento, é como se essa alma, sofresse sublimação e neste estado entrasse em todas as pessoas, causando tanta nostalgia, tanta melancolia. Algo como uma melodia de violoncelo com toques longos e suaves, como as músicas de Joe Hisaishi, Takanashi Yasuharu e tantos outros. Foram alguma das músicas que escutei no onibus, enquanto voltava para casa, para acompanhar o funeral do meu pai.

Acredito que toda pessoa, quando fatalmente tiver de encara-la, deva presenciar a morte sem desviar os olhos. Pois será assim que todo bom indivíduo deixará este mundo... independente de sua trajetória. O contato com este fenômeno nos gera reflexôes, aprendizados e vivências únicas, capazes de mudar o rumo de toda a nossa vida, de tornar importantes coisas que antes não possuiam valor algum... E que me desculpe Roberto Carlos, mas depois de tanto escrever, é incrivelmente bobo citar alguem de milênios atrás, mas: É preciso saber morrer.

Special thanks: Déborah - por me lembrar que eu tinha que ver o filme Okuribito.

8 de julho de 2009

'Devagarções' - Sexo, Arte e Política

Como nasce um novo ser humano?! Cegonha? Bom... a cegonha e o 'cegonho' felizmente só são capazes de produzir novas cegonhas. Vamos vamos.. pense! Como é que se faz!? ... suas bochechas ficaram coradas?! Estranho... porque será que assuntos como esse geram tanto desconforto!?

Penso em como deve ser o mundo dos naturistas. Pessoas que convivem em comunidades um tanto quanto afastadas da civilização padrão, vivendo de forma "natural", ou seja, como vieram ao mundo. Estão todos lá... trabalhando, se divertindo, estudando, e claro, tomando banho sempre peladões.

Esses dias um escritório inglês, para levantar a moral de sua equipe, fez com que toda sexta-feira se tornasse a Naked Friday (sexta nua), aonde todos trabalharão peladões. E parece ter dado certo para o espanto de muitos. Como será ir para o trabalho, e ao chegar, ao invés de colocar o uniforme, apenas tirar toda a roupa, e então assumir seu posto? Como homens e mulheres convivem num ambiente como este?! Ou então... qual será a visão da nudez para os naturistas!?

Sabemos que atitudes hormonalmente incorretas são passivas de punições por lá... então senhorito, reze para não encontrar nenhuma vizinha bonita ou coisa do tipo. Até mesmo, porque, neste quesito, os homens (exceção heim) levam larga desvantagem perante as mulheres, afinal, elas não tem nenhum sinal externo e evidente de que gostaram do que viram.

Será que a sociedade seria mais sincera, menos hipócrita e mais decente se todos vivêssemos peladões?! Alguns psicólogos acreditam que sim, os naturistas também, e para os gregos da Grécia Antiga, isso nem se quer deveria ser tema de debate, já que homens e mulheres atletas competiam totalmente peladões. Sim... sim... engana-se você que acha que os índios são os únicos... ou então que o biquini foi inventado para escandalizar a sociedade puritana do meio do século 20. As romanas, elas que inventaram os biquinis! Pois para elas, competir com eles era muito mais prático e 'aerodinâmico' do que sair correndo e pulando peladões...

Para todo adolescente, ver alguém pelado, já é algo que o deixa todo contente (no mau sentido), no entanto, quem nunca fica constrangido ao sonhar que foi pra escola, ou voltou pra casa - isso ocorreu comigo em sonho - peladão. Afinal, porque temos esses pudores, "naturalmente tão estranhos"? Por exemplo... todos temos bunda... homens e mulheres... todos! Mas ela ainda gera muito constrangimento por onde aparece. Aliás... aí aparece outra grande função da nudez atualmente. E nada tem a ver com erotismo!!! Mostrar-se nu, é mostrar como você verdadeiramente é. Mas também é o suficiente para você chamar a atenção de muita gente, por isso, protestos de peladas contra a matança de animais, pelados andando de bicicleta em são paulo... enfim. É o fator escandalizante. Se um dia quiser protestar contra as regras da sua escola... vá para a sala da diretoria pelado e... com certeza você será suspenso ou expulso, afinal a escola não é democrática hahahaha.

Ora ora... e tudo isso para falar de como viemos ao mundo. Sim.. isso é ambíguo. Viemos ao mundo porque papai e mamãe fizeram coisinhas na calada da noite (ou não)... aliás... você já teve a cara de pau de perguntar ao seus pais, aonde eles acham que te fabricaram?! É uma experiencia no mínimo interessante. Mas voltando... também viemos ao mundo, pelados! Mas logo botam uma roupinha legal na gente e pronto... nos deixam acostumados a isso.

E a partir deste costume, tudo que mexa com nossa sexualidade, nossa nudez, ou nossos órgãos de recursos humanos torna-se alvo de coisas eróticas, sensuais, pornográficas. Pornográfico, é literalmente o que se diz... é colocar o erótico no ambiente gráfico, ou seja, pornografia é a arte, produto, ou literatura obscena. Portanto, pais, digam aos seus filhos, quando lhe perguntarem porque não podem ver os filmes pornôs que tanto sonham em ver... "Filho, é melhor você não ver isso para não fazer arte!".

Os japoneses não concordavam muito com isso não... o Shunga por exemplo, era um estilo do Ukyo-e voltado apenas para o erotismo, e demonstrando todas as práticas comuns (e incomuns) dos japoneses quando o assunto era produção de nano-humanos. Só depois que foi meio vetado, mas isso é culpa do puritanismo ocidental. Poxa, eles estavam apenas fazendo arte! E já que estamos falando de Japão, o povo asiático é meio curioso: China, Coréia do Sul e Japão são os países que produzem e consomem mais pornografia do mundo. Ao mesmo tempo, o Japão por exemplo, é o país em que menos se faz sexo nessa década... Os homens acham que não dá pra fazer nada depois do trabalho, é muito cansaço. E as mulheres acham o sexo uma verdadeira chateação. Enquanto isso, os Gregos mandam ver... sim... aqueles que corriam peladões a milênios atrás... são os que mais fazem chuchuk.

Isto prova que, em termos estatísticos e de modo de vida... pornografia, nudez, nada tem a ver com natalidade, sexo de verdade e tal. É tudo arte mesmo! Só arte e produto... e acho que nesse campo, a arte não imita a vida (nem vice-versa).

E no Brasil heim!? Ahhh no Brasil a coisa vai que é uma beleza... é tudo tão pornô que motivo pro povo tirar a roupa não falta. Festas que nada tem a ver com isso, protestos (pois coisa errada é o que não falta)... enfim. Mas o legal mesmo, é que no Brasil, até a forma de governo é pornô!!! Sim sim... somos parte de uma Pornocracia!!! Ou seja, pornocracia é uma forma de governo influenciada, digamos, pelas mulheres da vida, os gigolôs, as cortesãs, os cafetões... e a influência destes na formação de seus filhos que hoje lá estão. Não me estranharia se no futuro tivéssemos o cafetão presidente, atriz pornô deputada, ator pornô ministro...

...que tristeza...

O quanto de nós se explica pela hipocrisia nossa de cada dia?

(***devagarções... são textos, cujos parágrafos são escritos em datas distintas, formando um texto final nem sempre muito coeso ou coerente.***)

23 de junho de 2009

Segundos que vem e vão, mas não em vão

Já era tarde, para o começo da minha tarde de segunda-feira, mas não era tão tardio a ponto de nada mais me inspirar mesmo tendo ido embora a luz do sol, que mal tinha visto naquele dia. Parado. Diante do semáforo, o dia corria, os carros de outro sentido corriam, mas eu estava parado, fazendo companhia para os que estavam ali junto de mim, naquele mesmo momento, partindo do mesmo lugar para destinos diferentes.
Meu automóvel era o quarto do grid na pequena ladeira de paralelepídedos do centro da cidade. Dois a minha frente, um ao meu lado... e embora todos parecessem voltar do cansaço, todos se encontravam ávidos pela largada que seria dada, para que tudo voltasse a seguir seu curso, seu ritmo... não há tempo para ficarmos parados. Mas afinal, para que tanta pressa? Se nem ao menos sabemos de onde viemos e para onde vamos... epa! Esses pensamentos são censurados em nossa rotina robótica de dias cinzentos.

Mesmo sendo tarde, também era cinzenta a tarde que nos encobria diante do semáforo. Carros cinzentos, construções cinzentas, asfalto cinzento... eram cinzas por todos os lados. Cinzentos e cinzentas perambulando para lá e para cá, cheios de rumo, vazios de importância entre si. Haviam outras cores. Ficávamos enrubrecidos de tanto amaldiçoarmos o vermelho incessante. Mas no instante seguido, tinhamos a recordação de que a cor que representa a esperança, é justamente o verde. Aquele mesmo!, o verde que nos devolverá para a pressa que nos impede de pensarmos, mas que diante do recesso, nos tomemos de inveja do verde alheio, desejando que ele se torne logo o mais justiceiro dos amarelos! Essa é a cor que separa os indecisos, dos seguros de si, pois são poucos os que o desafiam no tempo certo e mesmo aqueles, os seguros de si, muitas vezes por serem tão seguros, necessitam do seguro, para que sejam recompensados pelo excesso de segurança. Mas, os segundos corriam infinita, e interruptamente, assim como o redondo carmesim, tom de sol poente, que me fazia duvidar do fim de tarde. Mas tenho a certeza de que o sol havia se retirado. Era apenas o farol.

Mas minto. Abaixo do sinaleiro, uma menina, de idade da qual não faço idéia - mas era menina -, me chamou a atenção. Ela quebrou as regras do mundo cinzento, e transformou a simples ladeira de paralelepípedos em um verdadeiro grid de largada para carros mais furiosos do que velozes. Em frente a todos, desafiou a si mesma, e com movimentos circulares, tremulou tecidos em tons de azul. Não era nada majestoso, nem ela, nem o azul, nem os movimentos. O azul era desbotado e com o cinza da tarde ficava ainda mais inexpressivo. A menina, chamava mais atenção pelo modo original de se vestir do que pela própria aparência, já que parecia mais um monumento móvel tomada pelo cinza de toda tarde opaca. Os movimentos misturavam técnicas de porta-bandeira, com barman e largadeiros de corrida de automóveis (desconheço a classe profissional de quem exerce tal profissão), mas apesar de tudo, ela era capaz de executá-los de forma graciosa.

Como era possível? Como ela tinha a coragem de desafiar a toda aquela rotina, com algo a qual meus olhos não viam há muito tempo. Ela se vestia melhor do que muitos, e agia com uma coragem de poucos... mas isso não faria dela algo, talvez tão especial. Começando pelo lugar. Faixas de pedestre não são palcos. Por melhor que fosse a performance, carros não aplaudem, apenas buzinam. Transeúntes não pagam entrada e semáforo não é drive-in. E as bandeiras... o que significavam aquelas bandeiras? Com certeza a intenção dela não era a de se tornar uma vigilante do trânsito, nem muito menos, ter a suicida idéia de dar a tão almejada largada. Seria ela uma artista? Talvez sim... literalmente uma Artista de Ladeira de Paralelepípedos, uma profissão que talvez só ela tenha no mundo todo. Isso sim faria dela alguem mais especial... mas o que faria alguem especial ali? Naquela hora? Hah! Os cruéis obviamente pensariam: Quer chamar a atenção!

Chamou. Chamou mais que o semáforo. O azul não nos mandava parar, nem andar, nem estar alerta... apenas circulava sem significar nada. Ficamos atento... não sei a que, mas ficamos. A menina então talvez tenha se tornado menor que aquilo que ela significava naquele momento. Descaso, subhumanidade, criatividade, carência, capacidade, falta de oportunidade, coragem...

Então, voltei a mim novamente. Cercado de cinza, no quarto automóvel do grid da Ladeira de Paralelepípedos que São João deixou para nós... Ô São João, interceda pela sorte desta menina... pela dela, pela minha... pela de todos que aqui se encontram, parados diante de vós. Mas, não havia santo que fizesse a vida mudar, o sinal abrir e o coração tranquilizar. O pole-position tomou a iniciativa, e cedeu então o Grande Prêmio para a Menina. Não era troféu, mas talvez o metal fosse o mesmo... alumínio que reluz ouro, e que talvez valha centavos de um quilate. Através do vidro semi-aberto, as mãos não se tocaram, apenas trocaram moedas por movimentos de bandeira.

A atitude me botou em cheque. Porque eu pagaria por uma apresentação a qual não tive a escolha de assistir ou não? Não.. esse não foi o pensamento que me veio em mente, mas poderia ser. O que, na realidade, me subiu a cabeça foi o fato de admirar a coragem e desenvoltura da menina, que nada mais era, do que uma menina, como todas as outras. Poderia dar centavos para ela, que com certeza seriam mais vitais a ela do que a mim, mas que ao mesmo tempo poderiam não servir de nada. Poderia eu ser mais um do alto nível da socidade, aos quais quantias de três dígitos são meramente esmolas. Escolhi brincar de ser esse em meus pensamentos. O que eu diria para ela? O que ela diria para mim? O que ela faria com a quantia? Quando eu teria as respostas destas perguntas? Provavelmente nunca. Eu poderia então oferecer-lhe alguma oportunidade. E em histórias corriqueiras, esse seria o final feliz, mas... para um artista da rua, um trabalho convencional é nada mais nada menos que um atestado de óbito. Um cárcere. Talvez nem trabalho queira, afinal, já trabalha nas ruas... ele assim como qualquer um quer mais é o salário. E quem pagaria este? Eu.

Não... não... não.. sou contra. Isto é favorecer a exploração nas ruas, o trabalho infantil, mas ela nem era tão criança assim... mesmo menina, era mais mulher do que criança. Mas não... não posso financiar a pobreza, a falta de oportunidades e o descaso que o meu país dá a todos, mas mais para alguns. Por isso então... tenho que fingir que não vi. Tenho que estacionar o carro e descer para lhe dar uma orientação sobre a existência, e a vocação dela, além de uma aula de sócio-política para que ela entenda o porque dela estar ali e outros não. Para que ela possa tomar consciência do quão cruel é a realidade. Poderia também elogiá-la: Você maneja estas bandeiras como ninguém! Recomendarei este semáforos para amigos e conhecidos para que todos venham te ver!... Poderia ir contra meus princípios sem meios, nem fins, e apenas sacar o que tivesse no bolso e dar a ela.

Infelizmente para o mundo... o tempo que o vermelho perdura é insuficiênte para se entender a complexidade de tantas coisas, se obter tantas respostas e para tomar a decisão mais correta para o inédito momento. A então, esperança, surgiu para todos. O mundo novamente se abriu para todos aqueles que não aguentavam mais o recesso de roboticidade. O mundo se abriu para todos... menos para aquela menina. A esperança dela se encerrou quando o sol se foi... quando lhe pagaram ou não pagaram... quando todos partiram. E eu... desci ladeira abaixo, até que cruzei olhares com ela. Eu viraria para o mesmo lado em que ela se encontrava de mim... meu automóvel foi para a esquerda e meu olhar para a direita. Fugindo dela... da vida... da difícil vida... da difícil idéia de imaginar o quão difícil diversas vidas podem ser. Não decifrei o olhar dela, apenas o meu, de alguém que se envergonha de não obter uma solução eficaz para um problema secular, em porção de segundos... da vergonha do meu verde não ser o verde dela.

E então segui... e ela ficou. Ali, naquele semáforo. Aonde o neon amarelo anunciaria que em alguns instantes se iniciaria mais uma espetacular apresentação: O Show da Vida - A Bandeira e a Menina. Aberta ao público pagante, não-pagante, passante e não-passante. Última apresentação as onze da noite, quando então o semáforo se torna um pisca monocromaticamente amarelo, alternando em tom de aviso para que os carros não mais parem. O Show da Vida, voltará amanhã... na manhã de todo dia.

6 de fevereiro de 2009

Inútil melodia

Faz tanto tempo que não escrevo.
Na verdade creio que descobri um meio de encenar como se fosse uma madrugada, como é, como se houvesse mais alguém, qualquer um, como se estivessemos conversando, como estou. Não é solidão. É uma vontade de dividir com alguem o mundo. O momento exato. Não o depois, não o antes.... o agora. Não há tristeza.. nem alegria... há imensidão e contemplação. Mas contemplar sozinho, parece demais. É como sentir sozinho todas as alegrias do mundo, todas as tristezas do mundo. Preciso de qualquer coisa, que me faça dividir isso em tantas partes quanto eu possa ser.

Se a noite cai, e as pessoas dormem, parece que eu sempre estou lá. Esperando algo... esperando o dia para poder esperar novamente. Se a conversa surge... não importa o assunto, a importância, a ignorância... será bom. Será tão bom como ficar sozinho, no silêncio. O infeliz é querer um quando se tem o outro.

Tocar o violão enquanto o sol se aproxima, deixar que o vento leve todas as cordas e acordes sem relevância, toda a melodia feita para ir embora, para deixar embalar no vento, no ouvido daqueles que dormem, ao menor volume possível, mas não mudo. Imperceptível, mas não inexistente. Assim eu me sinto. Assim eu quero ser. Assim esperarei não ter sido.

Talvez seja como o som no silêncio. Não o som quebrando o silêncio como gostaria de ser, mas sim o som do silêncio, integrante dele, tão paradoxal como ser o feliz e o infeliz ao mesmo tempo, pelos mesmos motivos, pelas mesmas realizações e faltas.

Se as notas vão, espero que toquem em quem tocar. Mas que sem remetente cheguem aos seus destinos. Quero a todos, e que todos não lembrem de mim... quero ser esquecido para ser lembrado, e lembrado para jamais ser esquecido. Pois tenho a certeza, que mesmo sem a memoria, mesmo sem a vida, mesmo sem absolutamente tudo, lembrarei de cada um, de cada momento, de cada palavra... de cada pedacinho que me compôs.