11 de maio de 2012

A Escola de hoje é a mesma de ontem

"Escola de Atenas" por Rafael Sânzio - Qual filósofo aí te inspira?
A escola... ahhh.. a escola! Estudando para um concurso esses dias, comecei a viajar na maionese (ou nem tanto assim) e decidi que iria parar de estudar naquele momento para refletir e teorizar acerca do modelo curricular que temos para a educação básica.

Veja bem... ele não faz o menor sentido! Nenhum lugar da VIDA faz você fragmentar as coisas dessa forma, a não ser que você vá se especializar em algo, o que não é o caso da educação básica. Não só o currículo, mas a estrutura, em nenhum lugar da VIDA você vê as pessoas segmentadas por idade. Imagine só a loucura, uma empresa com um andar só com pessoas de 19 anos e outro só pra pessoas com 43. Aliás, muito pelo contrário, os lugares onde eu mais aprendi foi onde mais houve mistura de idades, gêneros, culturas... essa coisa de isolar de forma homogênea até parece algum tipo de quarentena.

Vamos a LEI! LDB da Educação Brasileira, Título II:

Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Não é isso que vemos na escola. Aprender logarítmo apenas para aprender se encerra nisso. O mesmo para os cálculos estequiométricos da química; para a ênclise, a mesóclise e a próclise; para os estudos de cartografia; para as biografias dos grandes pintores; ou até para o sonolento estudo das doenças causadas pelos seres do reino protista. Tudo isso é muito importante que saibamos em algum momento, desde que isso seja significativo para nós. Imagine você querer ensinar sobre as Zaibatsus para um indígena interessado em resolver problemas e conflitos do seu tempo e espaço? Não há significado algum! A impressão que dá é que o que é falado na escola, no livro, na lousa, não tem absolutamente nenhuma ligação com o mundo real, e ainda queremos inventar "jeitos divertidos" de ensinar. O problema não tá no jeito, tá na relação, ao meu ver.

Na escola pouco se vê de fato em prol da cidadania e para o desenvolvimento pleno do educando, nem para o trabalho. Saímos da escola sem saber segurar uma chave de fenda, sem saber o cíclo da Lua, sem saber nada de política e dos nossos direitos, não conhecemos nosso próprio corpo... E a culpa disso tudo é a imitação por moldes educativos americanos e europeus lá de quando nem Alemanha tinha ainda. Não podemos seguir nesse caminho, quantos anos ainda se vão nessa mesmisse?

É bem verdade que eu só tenho 26 anos, poucos kilometros rodados e talvez muito pouco conhecimento para propor algum tipo de coisa, mas algo, melhor do que este sistema atual, eu tenho a certeza de que consigo idealizar sim. Realizar... são outros 500, porque escola não é pra ser sozinho!

Como deveria ser então?
1- Primeiramente, uma alteração nos ciclos. Faria um ciclo básico todo diferente, baseado na velha ideia de ensinar a pescar. Alguém que aprende a aprender, pesquisando, não precisa se encaixar neste molde educacional que não se encaixa pra ninguém. Por que? Se aprendêssemos o que realmente for importante na vida, não haveria essa constante necessidade por revisões e decorebas... aprenderíamos a história do Brasil como ela foi desde o início, afinal, as crianças podem ter um vocabulário pequeno e uma compreensão de mundo pequena, mas não são anencéfalos a ponto de entender que o Brasil não foi descoberto, nem ficou independente e nem que cuidou bem dos seus índios nestes 500 anos. Seriam seis anos para aprendermos o básico: a lógica, as linguagens (do corpo, do português, da música, das artes, do inglês e espanhol até...), as relações interpessoais, a emoção e o auto conhecimento, a sociedade, da cultura e do meio ambiente. 

2- O ensino médio não possuíria mais esta divisão de matérias pelas quais conhecemos hoje: (LP, Mat, Fis, Qui, Bio, Geo, Hist, Ed.Fis, Artes...) - Perdemos tempo aprendendo coisas de pouco uso e nenhuma absorção e deixamos de aprender o que realmente forma uma pessoa em sua totalidade, levando em conta suas quatro dimensões: material, psicológica, social e transcendental. Seria necessário que partíssemos do nosso viver e das necessidades próximas, porque a educação também é sobre resolver problemas e melhorar a vida das pessoas. A gente não pode achar que a meta de mais de 12 anos é passar em uma prova, pra estudar mais depois e ficar num ciclo interminável de teoria e desconexão com a vida.

3- Essa divisão deveria deixar de existir passando para uma integração a partir do momento em que começassem a fazer coisas, a pesquisar e elaborar ações pra fazer ciência e resolver problemas de vida:
Comunicação, Estudos Sociais, Lógica, Ciências do Corpo, Ciências da Natureza, Formação Democrática, Trabalhos Manuais, Estética e Projeto pra Vida.

Sim, muito disso já está nos currículos do PCN mas interpretados na forma de livros didáticos, apostilas, folhas e exercícios. A prática pouco existe. É como se a escola fosse uma grande simulação sem sentido em seu molde tradicional. Ela simula a realidade distorcida, ou seja, não serve nem como simulação, por isso sempre vem o jargão "a escola não prepara pra vida". Claro que não! Ela teria que já ser a própria vida!

4- A transversalidade dos conteúdos (que tanto pregam os PCN's e a LDB) seria a principal alteração. Isso tudo para que possamos realmente tentar abranger mais conhecimento, aumentar a eficiência do tempo escolar e não utilizarmos 12 anos da vida de alguem, para que saia apenas sabendo ler, escrever, fazer 3 operações (pq na divisão todo mundo tropeça) e a lembrar apenas a parte tosca da história do Brasil (do Tiradentes, do Dom Pedro, do Dia do Índio e dos Caras Pintadas!). Se continuar assim, logo a gente vai ter um Brasil pior do que já temos.

5- Também creio que o fim das aulas e das salas seja um bom acontecimento, dando lugar aos grupos de estudo que buscam o conhecimento para determinada problemática, onde professores não dariam mais aulas, estariam em corresponsabilização na construção do conhecimento mútuo através da orientação e da prática ética constante. Também não acredito na via de mão única que sempre tentamos seguir: se adotamos Paulo Freire, negamos Montessori; se adotamos a Euritimia do Waldorf negamos a de Dalcroze... não precisamos ser tão chatos como Hegel que para humanizar o pensamento ocidental tratou toda a cosmovisão oriental como tribalismo exótico. E sem fetichismo né... achar que um método serve pra todos é negar o ser humano na complexidade que tem. 

Acho que se eu imaginar já dá pra começar a trilhar um caminho diferente né? Porque, quando eu saí da escola falei que nunca mais voltaria e nem dez anos depois eu já tô voltando. Não sei o que dará esse concurso, mas se der, que não seja um repeteco de muitas gerações nesse vício ruim que se tornou a educação.

? Você educadora e educador, quem é sua referência na educação? Qual escola é referência para você? (Não responda isso com abstrações como exemplos de outros países para o qual nunca foi e nunca viu, pessoas que só viu na tv falando bonito e etc...), estar perto dos que inspiram é estar perto dos que fazem e fizeram. Espero perto deles estar.