8 de abril de 2018

Japonês Caipira

Assistindo a uma palestra do grande Ivan Vilela no FLADEM (Fórum Latino Americano de Educação Musical) na USP, sobre a Música Caipira, me vieram diversos insights e reflexões interessantes. Quando ele tocou a música "Saudades do Japão" dos Irmãos Kurimori (dupla descoberta em 1858) me vieram constatações reais do quanto realmente a cultura caipira dobrou culturas estrangeiras e fez com que até italianos e japoneses recém chegados se tornassem caipiras em vários cantos do país.

TALVEZ NEM TODO MUNDO SAIBA...:
- Caipira tem origem das línguas tupi e tem relação com "cortador de mato";
- O 'jeito' caipira de falar, é considerado um dialeto e ele preserva coisas muito interessantes do português arcaico e ainda mais sobre o Nheengatu;
- NHEENGATU foi um dialeto de origem Tupi que surgiu da Língua Geral Setentrional, ou amazônica em paralelo com a língua geral meridional. Essa língua foi a mais falada no Brasil até 1758 quando sofreu com a proibição por parte do Marques de Pombal, além de ter sofrido com a forte migração portuguesa.
- Nesse dialeto originalmente haviam características em relação a sempre haver vogal depois de consoante e do som do R. Por isso o tal sotaque caipira com PORTA, MUIÉ, OREIA... O sotaque caipira não é errado, é um dialeto e o Nheengatu foi até o século 18 a genuína Língua Brasileira criada por linguistas como Padre Anchieta.

Mas aqui no caso queria chamá-los para entender a questão do que falo no início. Escutem esta música no youtube dos Irmãos Kurimori. Eles não só se utilizam de toda a linguagem musical caipira como criam uma intertextualidade belíssima com canções, uma folclória japonesa, uma brasileira ao final e outra internacional (de origem escocesa), conhecida no Japão como "Hotaru no Hikari" ou "Valsa da Despedida". 

Além da boniteza da letra, da melodia e da simplicidade na forma da música, as alterações tonais entres as partes da música são muito interessante sempre que alternam entre a moda de viola que conta as saudades do japão e as intertextualidades musicais das quais falei.

Vejo hoje em dia como é difícil se encontrar casos de intertextualidade nas composições, principalmente no Pop, que joga tudo quanto é referência em um caldeirão e produz uma música destinada a um público pasteurizado.

Uma das coisas que Ivan deixou claro em sua palestra foi justamente a questão de como costumamos chamar certos tipos de música como "música regional". Ou seja, se não está no eixo SP-RJ-SALVADOR é música regional. Se é música regional ou caipira, não se caracteriza como MPB... mas porque? Ele ainda complementa se o jeito carioca de se falar, por exemplo, não seria um verdadeiro regionalismo?

É engraçado reparar em antigas colônias de imigrantes e notar que primeiro passam por um processo de perda de suas raízes (principalmente em grandes centros urbanos), vão se desligando do idioma, de costumes e culturas, e hoje se afastam também da cultura caipira que seus avós e batchans tanto trouxeram para o dia a dia e aos poucos vão falando o 'português standard', ouvem música 'standard' e tornam-se não regionais. Conhecidos também como pessoas de "lugar algum" com uma terrível sensação tardia de perda de identidades, crescendo achando normal comemorar Halloween e crendo que o Natal só existe como conhecemos depois do Pop Noel. Você já se perguntou como eram as principais festividades no Brasil antes dos 1900?

Ouvindo a música dos Irmãos Kurimori, muitas coisas passaram pela cabeça, e uma delas foi, mesmo com todo o turbilhão de informações e coisas passando por aí, poucas vezes vi um verdadeiro e genuíno caso de casamento entre culturas, que não seja forjado ou pra inglês ver e que realmente revele a dualidade de culturas do mundo se entrelaçando. Eram japoneses, eram brasileiros, eram caipiras e tudo isso vem a tona em uma composição feita a partir de uma vivência e não como se faz muito em tempos recentes: "Vou criar algo sobre uma coisa legal que eu nunca vi, nunca vivi nem estudei, mas que imagino ser interessante". Assim nascem muitas novelas da globo e muito produto de entretenimento americano repletos de preconceitos incontáveis...

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