20 de julho de 2009

Partir - Ir para outro lugar ou fragmentar-se?


3h45 da manhã... e não pude me conter. Evito isso, mas... o momento trás muita inspiração depois de 2 horas de reflexão frente a televisão.

A vida realmente é algo extremamente frágil. Pessoas vivem, e basta um acontecimento, e não vivem mais. Estão lá, estáticas, frias, acinzentadas, com aquela expressão serena que por sinal é bem diferente da serenidade de quando dormimos. Portanto, para mim, ao morrer, não estamos dormindo.

Ao se passar por situações de morte de alguem próximo, tomamos conhecimento de como as coisas realmente funcionam. Ou seja, perdemos um pouco daquele romantismo de finais felizes, ou então de que a morte é um evento desesperador, algo raro... na verdade não. A morte ocorre em número exatamente igual ao da vida. As pessoas partem, como mostra a história dos peixes que nadam contra a correnteza e morrem, peixes que cheguei a ver quando morava na cidade dos Peixes Roncadores. A piracema, é o evento dos peixes que sobem a correnteza para desovar, e resultar na vida de mais peixes.

Nadamos, nadamos, e sabemos o que nos espera, também sabemos o que espera a todos. Mas mesmo assim nadamos. E, como espectador da vida e da morte, reconheço que muito do meu ângulo de visão da vida mudou após assistir a morte do meu pai. Sim... não foi um acidente, algo que acontece inesperadamente de uma hora para outra. Foi um processo que durou meses, e talvez a verdadeira morte lhe tivera chego antes mesmo da morte que todos ali viram no último momento. Aquilo apenas foi o encerramento. Uma vida de saúde... voltada para o trabalho... e cheia de projetos. Assim era. Os projetos não se realizaram, as frustrações surgiram e veio então a hora de partir. Apesar de todas as boas lembranças (muitas) e de todas as coisas boas vividas, aprendidas e ensinadas, a morte não parece algo feliz. Nem triste. Apenas... uma partida confortável para quem vai, e dilaceradora para quem fica.



Reconheço desde pequeno que jamais senti medo de morrer, pelo contrário, a vida me mete milhões de vezes mais medo do que a morte. Mas se a incerteza do que virá atrás da porta existe... realmente... a morte se torna algo digno de desconfianças, de lágrimas, capaz de carregar uma magnitude muito além do que realmente é: uma simples passagem.

Quando alguem morre, e nos deparamos, com o corpo, em sua última imagem, realmente falta algo. Que me perdoem os atores do filme, mas, nenhuma maquiagem para mortos será capaz de lhes tirar o ânimo, aquele algo, talvez alma, que nos dá o taxativo: vivo. Nesse momento, é como se essa alma, sofresse sublimação e neste estado entrasse em todas as pessoas, causando tanta nostalgia, tanta melancolia. Algo como uma melodia de violoncelo com toques longos e suaves, como as músicas de Joe Hisaishi, Takanashi Yasuharu e tantos outros. Foram alguma das músicas que escutei no onibus, enquanto voltava para casa, para acompanhar o funeral do meu pai.

Acredito que toda pessoa, quando fatalmente tiver de encara-la, deva presenciar a morte sem desviar os olhos. Pois será assim que todo bom indivíduo deixará este mundo... independente de sua trajetória. O contato com este fenômeno nos gera reflexôes, aprendizados e vivências únicas, capazes de mudar o rumo de toda a nossa vida, de tornar importantes coisas que antes não possuiam valor algum... E que me desculpe Roberto Carlos, mas depois de tanto escrever, é incrivelmente bobo citar alguem de milênios atrás, mas: É preciso saber morrer.

Special thanks: Déborah - por me lembrar que eu tinha que ver o filme Okuribito.

Um comentário:

One Day disse...

Caro Tuck,

Parabéns, escreveu belíssimamente, digo com grande sinceridade.
Agora pareceu-me que recomendei este filme com entusiasmo demais.
Talvez ele mereça algo melhor ao invés disso, apenas um sorriso silencioso.

Obrigada por compartilhar este texto tão especial. Foi como bater um papo muito agradável bebendo chá quentinho.

Um abraço.
Feliz dia do amigo!!